Resenha: A Batalha do Apocalipse de Eduardo Spohr

Sinopse: Há muitos e muitos anos, tantos quanto o número de estrelas no céu, o paraíso celeste foi palco de um terrível levante. Um grupo de anjos guerreiros, amantes da justiça e da liberdade, desafiou a tirania dos poderosos arcanjos, levantando armas contra seus opressores. Expulsos, os renegados foram forçados ao exílio e condenados a vagar pelo mundo dos homens até o Dia do Juízo Final. Mas eis que chega o momento do Apocalipse, o tempo do ajuste de contas. Único sobrevivente do expurgo, Ablon, o líder dos renegados, é convidado por Lúcifer, o Arcanjo Negro, a se juntar às suas legiões na Batalha do Armagedon, o embate final entre o céu e o inferno, a guerra que decidirá não só o destino do mundo, mas o futuro da humanidade. Das ruínas da Babilônia ao esplendor do Império Romano, das vastas planícies da China aos gelados castelos da Inglaterra medieval, A Batalha do Apocalipse não é apenas uma viagem pela história humana – é também uma jornada de conhecimento, um épico empolgante, repleto de lutas heroicas, magia, romance e suspense. 

“Não há na literatura em língua portuguesa conhecida nada que se pareça com A Batalha do Apocalipse” – José Louzeiro, escritor e roteirista. Faço das palavras de Louzeiro as minhas. Digo isso porque na literatura brasileira estamos acostumados mais com romance do que com a fantasia épica. Eduardo Spohr nos trás neste magnífico livro uma versão completamente diferente das que já conhecemos acerca da criação do universo e o trabalho dos arcanjos e anjos na terra.

Os personagens são tão humanizados e a teoria da criação apresentada por Spohr é de fato convincente que nos leva a crer que tudo isso pode fazer parte da nossa realidade. Nos faz pensar que talvez Deus realmente esteja dormindo desde o momento da criação, enquanto os arcanjos travam guerras sangrentas entre si e lutam pelo poder. As brigas entre os arcanjos simplesmente acontecem pelo amor que alguns demonstram pelos seres humanos, e pelo ódio daqueles que sentem inveja do poder que Deus deu à nós.  Falando no sentido religioso parece absurdo, mas a história se desenvolve de bem bem lógica e fácil de compreender.

Miguel e Lúcifer se roem de inveja de nós, porque somos as únicas criaturas dotadas de livre arbítrio. Podemos decidir como desejamos agir enquanto os celestiais agem puramente por instinto. Nós nos emocionamos, criamos empatia por nossos semelhantes, nos apaixonamos, enquanto os celestiais tem dificuldade de entender tais sentimentos, somos nós os mestres na arte de sentir. Temos almas que não morrem nem quando deixamos o corpo, e teremos sempre a chance de recomeçar, ao contrário dos celestiais que se vão um dia para nunca mais voltar.

A Batalha do Apocalipse narra a história de um grupo de anjos guerreiros, justiceiros que lutam por liberdade, e que ao desafiar os poderosos arcanjos, são forçados ao exílio e condenados a vagar no mundo dos homens, fugindo de buscadores, e aprendendo a viver em uma esfera totalmente diferente, até o dia do Juízo Final. Ablon, nosso renegado mais ilustre, é o único a sobreviver até esse dia, com a ajuda da feiticeira de En-Dor Shamira, por quem se apaixona e luta até o fim. O Anjo Renegado, que não desejava tomar partido na guerra, acaba sendo forçado a lutar ao lado de um dos arcanjos e se torna então um dos personagens principais na guerra que decide o destino do mundo e o futuro da humanidade.

A obra de arte de Spohr narra a história da humanidade, em um épico e empolgante texto, repleto de lutas heroicas, conflitos ideológicos, personagens incríveis e complexos, reflexões sobre a humanidade, romance e um apelo místico forte. Fantasioso e bastante criativo, esse livro é para quem realmente gosta de histórias míticas. Talvez não agrade determinados segmentos religiosos, devido a desconstrução de figuras sagradas, mas vale lembrar que é apenas uma ficção. Esse é o primeiro livro que li do autor e já quero logo ler outros. 

Resenha: A Hospedeira de Stephenie Meyer

Sinopse: Nosso planeta foi dominado por um inimigo que não pode ser detectado. Os humanos se tornaram hospedeiros dos invasores: suas mentes são extraídas, enquanto seus corpos permanecem intactos e prosseguem suas vidas aparentemente sem alteração. A maior parte da humanidade sucumbiu a tal processo. Quando Melanie, um dos humanos “selvagens” que ainda restam, é capturada, ela tem certeza de que será seu fim. Peregrina, a “alma” invasora designada para o corpo de Melanie, foi alertada sobre os desafios de viver dentro de um ser humano: as emoções irresistíveis, o excesso de sensações, a persistência das lembranças e das memórias vívidas. Mas há uma dificuldade que Peregrina não esperava: a antiga ocupante de seu corpo se recusa a desistir da posse de sua mente.Peregrina investiga os pensamentos de Melanie com o objetivo de descobrir o paradeiro dos remanescentes da resistência humana. Entretanto, Melanie ocupa a mente de sua invasora com visões do homem que ama: Jared, que continua a viver escondido. Incapaz de se separar dos desejos de seu corpo, Peregrina começa a se sentir intensamente atraída por aquele humano, a quem foi submetida por uma espécie de exposição forçada.

Preciso confessar que li alguns livros da saga Crepúsculo na época da febre vampiresca, até porque estava na moda e todo mundo só falava nisso, até uma das minhas amigas que odeia ler falava na saga o tempo inteiro. Quando vi o livro A Hospedeira na promoção nas lojas americanas, achei que não deveria ser nada muito interessante pois eu não ouvi nada sobre a nova publicação de Meyer. 

Comprei o livro porque fiquei super curiosa para saber quem era a droga da Hospedeira e o que ela era capaz de fazer, comprei também porque pressão da minha mãe que adora livros que envolvam ficção científica. O que me interessou primeiramente foi quando li o release que demonstrava que o livro não era apenas um romance bobo de adolescente, tinha algo mais, o avanço da ciência, as novas tecnologias e a possibilidade de enfrentarmos uma guerra com criaturas mais evoluídas que nós. 

O livro fala não apenas do amor carnal, mas de toda a profundeza das emoções humanas e o amor à humanidade em geral. Os primeiros capítulos me deixaram confusa, precisei reler alguns trechos para entender de fato que eu estava diante de duas personagens diferentes em um só corpo, na metade do livro finalmente entendi o que de fato a autora queria propôr, e então eu já não sabia mais para quem torcer. 

Acredito que este tenha sido o livro mais inteligente de Stephenie Meyer, é uma pena que tenha sido tão pouco comentado. Ouvi muitas críticas em relação ao filme, de fato é um filme confuso, mais que o livro, e para quem assistiu ao filme sem antes ler o livro, realmente não entendeu bulufas. 

A Hospedeira é uma história fantástica e na minha humilde opinião, mais interessante do que toda a Saga Crepúsculo. Apesar de ser uma leitura um pouco cansativa no começo, torna-se mais intensa e instigante do meio para o fim. A história é uma ficção científica bastante criativa e inteligente, com muita ação e emoções profundas. É lamentável que não tenha feito o mesmo sucesso de Crepúsculo.

Resenha: O Colecionador de Lágrimas de Augusto Cury

Sinopse: Adolf Hitler, um austríaco, tosco, rude, inculto, usou técnicas sofisticadíssimas de manipulação da emoção para se agigantar no inconsciente coletivo de uma sociedade à qual não pertencia, a Alemanha. É provável que fiquemos perplexos ao passearmos pela infância e formação da personalidade do adulto que se tornou um dos maiores monstros, se não o maior sociopata da história, mas ficaremos igualmente impressionado com a complexidade de sua mente e com o magnetismo social formentado por ele e seus asseclas, em especial Goebbels, seu ministro de propaganda. Antes de devorar os judeus, eslavos, marxistas, homossexuais, ciganos, maçons, Hitler usou estratégias ímpares para devorar a alma dos alemães, um dos povos mais cultos do seu tempo, portador provavelmente da melhor educação clássica.

Depois do sucesso da Série O Vendedor de Sonhos, Augusto Cury resurge com mais um livro que instiga o nosso psicológico. Dramas do passado, um romance, e um professor idignado com o atual sistema de ensino. O Colecionador de Lágrimas nos leva a uma profunda reflexão sobre os crimes do nazismo cometidos contra a humanidade, a personalidade do terrível Adolf Hitler que soube manipular com maestria a emoção de uma sociedade alemã devastada pela guerra e com orgulho ferido. O livro nos leva a uma viagem no tempo, até a segunda guerra mundial, onde vivenciamos o cenário dramático do Nazismo e compreendemos o que levou a essa barbaridade, e como isso pode se refletir atualmente.

Júlio Verne é um notável professor de história, muito respeitado onde passa, acostumado a palestrar para grandes platéias, gosta de incentivar o pensamento crítico dos seus alunos, provocar reflexões profundas sobre temas impolgantes, detesta a passividade nas universidades e procura sempre que possível fugir dos padrões. Um professor amado por uns e odiado por outros. Casado com Katherine, um professora de pscicologia social, formam um respeitado casal de intelectuais.

A vida de Júlio Verne começa a se complicar quando misteriosamente surgem pesadelos ultra realistas durante o sono, levando-o presenciar os temíveis epsódios da segunda grande guerra. Judeu e um grande especialista das guerras mundiais, Júlio sente-se muito abalado com os acontecimentos do Nazismo, e expõe toda a sua indignação com os seus alunos. Os pesadelos do professor vão tornando-se cada vez mais frequentes, mas ele não perde o ânimo de seguir com as suas aulas.

O professor idealista discorre sobre a sociedade alemã fragilizada pela guerra e o surgimento de um homem sem grandes vocações mas com uma grande capacidade de manipular a mente das pessoas e promover o fanatismo, sua saula de aula transforma-se um um lugar de constantes debates ideológicos, o problema é que a forma como o professor expressa suas opniões sobre o nazismo, acaba sendo alvo de críticas de alguns alunos. Seus terrores noturnos refletem na sua maneira de dar aulas, e aos poucos ele vai ganhando o prestígio de muitos alunos, mas perdendo a credibilidade do reitor da universidade que não concorda com sua nova postura e suas ideias.

Se não bastasse os pesadelos que o levam todas as noites a vinvenciar fatos do nazismo, Júlio Verne começa a sentir-se perseguido na vida real, ele começa a receber cartas assinadas por homens que se mostram como personagens do passado, o que assusta sua esposa e a leva a crer que Júlio esteja passando por problemas mentais. Porém o professor não parece ser alguém desequilibrado, vivendo fora da realidade ou criando essas situações. Até que uma perseguição real se inicia. Homens aparentemente nazistas começam a persegui-lo em todos os cantos.

Primeiro uma tentativa de atropelamento  na rua e depois um atirador dentro da universidade, e as cartas estranhas ganham um tom ainda mais ameaçador. A polícia acredita que o casal esteja sofrendo uma perseguição por um grupo de adoradores do nazismo que se sentem incomodados com os discusos do professor judeu. Mas esse caso fica cada vez mais misterioso, e longe de uma solução. Os terroristas parecem vir diretamente do passado e os pesadelos de Júlio o deixam cada vez mais desequilibrado.

Júlio Verne é afastado da instituição de ensino por receber reclamações de alguns alunos, causar polêmica e um tumulto incomum nas salas de aula, além de parecer estar mentalmente perturbado. Alguns alunos não se conformam com a decisão, não querem deixar de apredender seguindo o raciocínio ideologico do professor, e começam a organizar aulas e debates semanais na casa do professor. Porém mesmo com o esquema de segunrança montado pela polícia, a casa de Júlio deixa de ser um porto seguro, um novo ataque os desespera e o casal acaba tendo que morar mudar de endereço sem poder entrar em contato com ninguém, até que o caso seja resolvido.

Mas o caso parece não ter solução, passado e presente se misturam ameaçando o futuro. Júlio Verne na verdade não tem nenhum problema mental, mas a situação em que vive é enlouquecedora, o professor realmente tem feito viagens ao passado e atraindo personalidades do nazismo para o presente como se atravessassem um túnel do tempo. O que é absurdo de demais e torna o livro algo bem sem noção. Eis que ele recebe o contato de um grupo que pode ajudá-lo a resolver definitivamente essa confusa situação.

Um grupo de importantes cientistas alemĂŁs estĂŁo trabalhando secretamente em um projeto chamado tĂşnel do tempo, eles querem mudar os acontecimentos da segunda guerra e acabar com o nazismo, como se ele nunca tivesse existido, para entĂŁo livrar a Alemanha da culpa por ter permitido que ocorrece o maior crime contra a humanidade nos ultimos tempos.

Sim, o final da história é absurdo! Júlio Verne, um simples professor de história, idealista, aceita viajar no tempo até a época do nazismo e tentar mudar os fatos que levaram à ascendência de Hitler ao poder, e mudar o rumo da história, evitando o holocauto e o crime que chocou a humanidade, correndo o risco de ficar perdido no tempo, morrer, ao mudar complemente o presente.

O que eu achei do livro?

Augusto Cury nos incetivar a refletir sobre as coisas, a pensar criticamente e exergar novos pontos de vista. Amo história mundial e fico sempre fascinada por livros que contam relatos de guerra. O nazismo sempre mexeu com a minha curiosidade, desde os tempos de ensino médio quando história era a minha matéria favorita. Gostei da junção de romance, história e pscicologia. Esse livro nos faz refletir sobre o nazismo a partir de um ponto de vista mais psicológico, desde a formação da personalidade de Hitler, ao seu jeito de pensar e capacidade de manipulação em uma sociedade fragilizada não apenas economicamente mas principalmente psicologicamente. É uma leitura instigante, reflexiva, porém o final me decepcionou um pouco, não que seja ruim, mas não tem muita lógica no meu ponto de vista.

Resenha: O Cavaleiro dos Sete Reinos… Contos da Antiga Westeros

Sinopse: A dinastia Targaryen vive seu auge, os  herdeiros da antiga Valíria governam os sete reinos de Westeros que atravessam um tempo de paz e prosperidade. A Guarda Real era motivo de orgulho e o sonho de qualquer cavaleiro, Dunk um menino pobre e se família da Baixada das Pulgas tem a chance de se tornar escudeiro de um Cavaleiro Andante e deixar a vida miserável em Porto Real. Quando seu mestre morre Dunk decide tomar o seu lugar e fazer fama a partir de um torneio na Campina de Vaufreixo, no caminho ele conhece Egg, um menino simples, de cabeça raspada e estranhos olhos cor de púrpura, que na verdade é muito mais do que revela ser. Dunk e Egg tornam-se grandes amigos, enfrentaram muitas aventuras e perigos nas estradas de Westeros, e a amizade continua mesmo após ambos assumirem cargos estratégicos no reinado Targaryen.

“Ele era um bom homem e me ensinou a ser um cavaleiro, não só a lutar com a espada e a lança, mas a ter honra. Um cavaleiro defende os inocentes. Foi tudo o que eu fiz. Preciso de mais um cavaleiro para lutar ao meu lado.” – Sor Duncan O Alto.

Quem é fã de Crônicas de Gelo e Fogo e já leu os livros da série de George Martin já deve ter ouvido falar no Sor Ducan O Alto, um célebre cavaleiro branco dos tempos do Rei Aegon V, até mesmo nos seriados da HBO em alguns episódios há referências a ele e seu escudeiro Egg. O livro é uma série de histórias escritas por George R.R. Martin e publicadas em diferentes obras ao longo dos anos, antes mesmo do nascimento dos famosos personagens de Crônicas de Gelo e Fogo.

O sucesso da série foi tão grande que resolveram investir em um livro paralelo e adicional. O Cavaleiro dos Sete Reinos é uma série de contos que se passam 90 anos antes da grande Guerra dos Tronos, primeiro livro de As Crônicas de Gelo e Fogo, no tempo que os Sete Reinos de Westeros eram governados pela família Targaryen, os famosos filhos dos dragões e herdeiros da antiga Valíria.

A história toda gira em torno do cavaleiro Ducan O Alto e seu escudeiro Egg. Duncan era um menino nascido na baixada das pulgas, sem pai, nem mãe, vivia perambulando pelas ruas sujas e pobres de Porto Real, até encontrar um velho cavaleiro andante e tornar-se seu escudeiro. Duncan jamais aprendera a lutar uma justa com lanças com mesma maestria dos cavaleiros juramentados, cavaleiros andantes não eram respeitados e não serviam a ninguém a não ser a si mesmos.

Duncan foi armado cavaleiro quando seu mestre adoeceu e teve que encarar as estradas e ganhar o seu sustento por conta próprio. Ele nunca imaginara ter um cavalo invejável, nem ser tão bom com a lanças, na prática ele era um péssimo cavaleiro, sem nenhuma experiência, apenas o seu tamanho era capaz de assustar os outros. Mas restava em Duncan algo que muitos cavaleiros de espadas juramentadas haviam abandonado: a dignidade, o compromisso com a justiça e com os mais fracos.

Foi muito mais a dignidade do que os talentos de Dunk que o levaram a conquistar o Rei Aegon V, ele que jamais acreditara que pudesse chegar tão longe, tornou-se um dos cavaleiros da guarda real mais respeitados da história de Westeros. Mas até a conquista final, Dunk passou por muitas dificuldades e perigosas aventuras junto com seu escudeiro Egg que era nada menos do que um príncipe Targaryen disfarçado. A história de Dunk e Egg ficou conhecida por toda Westeros e é relembrada por vários personagens importantes dos tempos atuais dos Sete Reinos.

O livro narra eventos importantes da história de Westeros como a tragédia de Solaestival, a dinastia Targaryen e a revolta dos Blackfire. Divido em três partes enormes: O Cavaleiro Andante, A Espada Juramentada e O Cavaleiro dos Sete Reinos, mergulhamos um pouco na história dos Targaryen, a mais famosa família de Westeros, e acompanhamos a trajetória de um cavaleiro digno de seu título.

Apesar de não ser um livro grande como os outros da série atual, a leitura é mais cansativa do que A Dança dos Dragões, o livro não é divido em vários capítulos curtos, mas em três partes com relatos grandes e sem interrupções, o que cansa o leitor que não tem tempo de ficar mais de uma hora lendo um mesmo capitulo. Tirando o fator cansativo, senti falta de algo a mais história como um todo, apesar de ser uma história emocionante em que ficamos cativados por um personagem e torcemos por ele até o fim.

Talvez eu apenas tenha criado expectativas demais, mas senti falta dos Targaryen, das lendas com os dragões e todas as aventuras daquele tempo, é apenas a história de um cavaleiro, as aventuras de um cavaleiro, não temos grandes guerras nem dragões rebeldes cuspindo fogo. Enfim, eu criei expectativas demais! Mas para todo fã de Crônicas de Gelo e Fogo, vale a pena ler e conhecer a história do famoso Duncan O Alto, só não espere os dragões cuspindo fogo.

SĂ©rie: O Imortais de Alyson Noel

A sĂ©rie escrita pela americana Alyson Noel gira em torno de Ever Bloom, uma menina popular que tinha uma vida perfeita e invejável, atĂ© que um acidente de carro envolvendo a sua famĂ­lia muda completamente a sua histĂłria. A loira de olhos azuis se vĂŞ perdida e atormentada, a experiĂŞncia de quase morte trás a ela uma nova maneira de enxergar as coisas e as pessoas. Ever Bloom passa de lĂ­der de torcida, patricinha popular a esquisitona do capuz preto. Com seis livros, a trama se passa na CalifĂłrnia em tempos atuais, mas mistura o passado com o presente, uma viagem complexa e estimulante sobre as várias encarnações que uma alma pode ter e como elas se interligam. A sĂ©rie de Alyson Noel Ă© uma mistura de romance, magia e alquimia, com conceitos espiritualistas bem definidos e convincentes.  Uma fantasia inteligente, espirituosa, extremamente criativa e estimulante.

Quando li o primeiro livro da série Para Sempre, confesso que fiquei um pouco decepcionada, mas também curiosa, a princípio achei que se tratasse de mais uma historinha de vampiros a moda Crepúsculo. O primeiro livro da série como relatei em uma resenha feita aqui há muito tempo atrás, conta como Ever Bloom se transformou de menina comum a uma esquisitona com poderes paranormais e como ela conheceu (reconheceu) Damen August, o rapaz misterioso, cheio de segredos que a salvou do acidente de carro que matou sua família. O livro termina com muitos segredos em relação a personalidade de Damen e sua real ligação com Ever, a história parece muito vaga e aponta para mais um conto vampiresco qualquer, o que desestimula a leitura do segundo livro.

Depois de Lua Azul engatei em Terra das Sombras e não parei mais, Ever Bloom descobre como viajar para Sumerland, uma espécie de universo paralelo, um mundo mágico e espiritual que só algumas pessoas com certos dons conseguem entrar. Em sumerland ela pode criar o que quiser, vivenciar situações diferentes e principalmente buscar respostas para todas as suas dúvidas. Ever começa a descobrir a sua ligação cármica com Damen e as vidas passadas que eles viveram juntos, ela começa a compreender a infinitude das almas, o mundo espiritual e o poder mágico.

Nem tudo são flores, ao descobrir os segredos do passado Ever se vê confusa, cheia de dúvidas e incertezas, outros personagens importantes do seu passado começam a aparecer novamente em sua vida, uns aparecem para o bem e outros para o mal, existe um carma que precisa ser resolvido para que ela possa voltar a viver em paz. Ela precisa aprender a usar a magia para se defender e enfrentar uma perigosa viagem ao passado, relembrando todas as suas encarnações, revivendo momentos de dor para compreender o que ela realmente deve fazer. Em geral a série nos mostra as verdades do mundo espiritual, o conceito de reencarnação e a imortalidade da alma com uma mistura de magia, paranormalidade e a busca pela evolução espiritual e o conhecimento superior.

Resenha: NinguĂ©m Ă© de NinguĂ©m de ZĂ­bia Gasparetto

Sinopse: Há quem pense que sentir ciĂşme Ă© provar que se ama ardentemente. AtĂ© descobrir que ele transforma a sua vida amorosa em dolorosa tragĂ©dia que termina em amarga separação.  Se fizermos as contas, perceberemos que sofremos mais com as pessoas que amamos do que com aquelas que nos odeiam.  O que vocĂŞ chama de amor nĂŁo será apenas paixĂŁo?  VocĂŞ vive se inferiorizando por nĂŁo conseguir atingir seus vaidosos ideais e sempre escolhe alguĂ©m que terá a terrĂ­vel tarefa de fazĂŞ-lo sentir-se melhor. Tortura essa pessoa para que ela lhe dĂŞ uma exaustiva atenção, a mesma que vocĂŞ se nega.  Luta para ser o dono absoluto do outro, como se o fato de gostar lhe desse esse direito.  Esta histĂłria o fará refletir sobre o falso e o verdadeiro amor e perceber que a vida afetiva Ă© um constante exercĂ­cio de autodomĂ­nio.  No final descobriremos que sĂł possuĂ­mos a nĂłs mesmos, pois ninguĂ©m Ă© de ninguĂ©m!

Roberto é um homem orgulhoso e machista, seu ciúme extremo demonstra um grande complexo de inferioridade que o leva ao abismo. Casado com Gabriela, uma mulher inteligente, determinada, empoderada e humilde, o oposto de Roberto. Roberto tem pouco estudo, mas sempre trabalhou por conta própria fazendo seu dinheiro de forma honesta, porém a ganância, o desejo de ficar rico para tentar convencer sua esposa a deixar de trabalhar fora, o leva a se associar a um homem dissimulado que toma todo o seu dinheiro. 

Roberto perde tudo, fica na miséria e não consegue arrumar emprego por não ter experiência de carteira assinada, dependendo da ajuda financeira de sua esposa, que apesar dos pedidos do marido para que deixasse de trabalhar fora e ficasse somente cuidando da casa, continuou na empresa de Renato, sempre buscando fazer o seu melhor no trabalho. Gabriela ganha cada vez a confiança de Renato, que aos poucos vê-se apaixonado por aquela mulher forte, inteligente e auto-suficiente. 

PorĂ©m Renato Ă© casado com Gioconda, uma mulher manhosa, de personalidade frágil, possessiva e desequilibrada. Apesar do seu casamento com Gioconda ser um fracasso, e mesmo desejando a separação, Renato se mantĂ©m fiel a esposa e mantĂ©m notável respeito por Gabriela, silenciando seus sentimentos e cultivando uma amizade profunda. Gabriela admira o patrĂŁo, mas demora a entender seus sentimentos por ele, ela ainda ama o seu marido, apesar das diferenças. 

O ciúmes doentio de Roberto e Gioconda fazem eles se aliarem em uma empreitada perigosa para afastar Renato e Gabriela, jurando que eles possuem um relacionamento secreto e movidos por forças malignas que se aproveitam de suas fragilidades para incentivarem ainda mais a prática do mal. Eles conseguem causar uma verdadeira tragédia, destruindo suas próprias vidas e afastando definitivamente aqueles que eles pensam que amam.

Apesar das alegações caluniosas de que seriam amantes, da amizade que vai transformando-se em amor e da ruĂ­na de seus relacionamentos, Gabriela e Renato procuram calar seus sentimentos, assumindo o que sentem apenas quando já se vĂŞem livres dos seus casamentos. Eles conseguem construir um relacionamento bonito e saudável em um verdadeiro encontro de almas afins, com igualdade de energias e propĂłsitos. 

O livro nos trás uma verdadeira lição sobre amor, autoconfiança, e postura firme e positiva perante as dificuldades da vida. Nos mostra como as nossas atitudes diárias, nossos pensamentos e nossos sentimentos influenciam as energias que se aproximam de nĂłs e como a espiritualidade interfere na vida de nĂłs encarnados. Nos alerta sobre a necessidade de vigiarmos o que nos vai no Ă­ntimo, limpar nossos corações, cuidar dos nossos pensamentos e sermos pessoas mais otimistas e corajosas. 

Resenha: PaixĂŁo de Lauren Kate

Sinopse: Luce morreria por Daniel. E morreu. De novo e de novo. Ao longo do tempo, Luce e Daniel se encontraram somente para serem dolorosamente separados: Luce morta, Daniel deixado machucado e sozinho. Mas talvez nĂŁo precise ser dessa maneira… Luce está certa que algo – ou alguĂ©m – em uma vida passada pode ajudá-la em sua vida presente. EntĂŁo ela começa a jornada mais importante desta vida… voltando eternidades para presenciar em primeira mĂŁo seus romances com Daniel… e finalmente descobrir o segredo para fazer seu amor durar. Cam e a legiĂŁo de anjos e Exilados estĂŁo desesperados para pegar Luce, mas nenhum deles está tĂŁo agitado quanto Daniel. Ele vai atrás de Luce atravĂ©s de seus passados em comum, com medo do que pode acontecer se ela reescrever a histĂłria. Porque entĂŁo seu romance corre o risco de acabar… para sempre.

Luce está cansada dos segredos de seu amado anjo misterioso, ela está cansada de receber ordens com a justificativa de que precisa de proteção, ela sente que é capaz de fazer mais, de lutar por si própria. Luce cresceu muito como mulher do primeiro livro da série até esse, embora ainda seja adolescente. Ela aprendeu que pode se virar sozinha e que para o seu relacionamento dar certo ela precisa compreender a sua história, suas vidas passadas e o mistério que o prende a Daniel. É amor ou maldição? Daniel afirma incessantemente que é amor, mas as tragédias assistidas por Luce a fazem duvidar dos sentimentos que os unem. E se ela pudesse libertar Daniel de ter que se prender a ela, vida após vida, sabendo que no final irá perdê-la? 

Luce parte em uma aventura imprevisível, manejando suas antigas sobras que antes tanto a assustavam como meio de transporte rumo ao seu passado, ela embarca em inúmeras vidas tendo chegar ao ponto de início, quando ela conheceu Daniel, quando a história de deles de fato começou. Ela acredita que através do passado poderá mudar o seu futuro com Daniel, o que ela não sabe é que qualquer deslize pode apagar sua existência, além de Cam e os anjos caídos que continuam perseguindo-a. Ela parte sozinha entre as sombras, deixando seus amigos preocupados tentando encontrá-la sem sequer ter ideia de qual dimensão ela estará.  

Ela observa sua vidas antigas, em épocas e lugares totalmente diferentes, vê seus personagens, suas antigas personalidades se desenvolverem, se apaixonarem sempre pelo mesmo homem misterioso e incrivelmente lindo que sempre aparece por um acaso em suas vidas, vê o apego e revive em cada personagem os sentimentos daquela paixão inexplicável e morre, se apaixona, sofre e morre em uma explosão de luz que dura poucos segundos, ela parte sempre e sempre, deixando inconsolável um anjo amaldiçoado. Luce começa a duvidar do amor que os une, confundindo-o como uma prisão que sufoca ambos os envolvidos, embora ame Daniel verdadeiramente, ela já não sabe mais se sua ligação com ele pode um dia ser benéfica.

Daniel parte através de Luce pelas sombras, revivendo suas vidas antigas e cada vez mais preocupado com as escolhas que Luce pode fazer ao presenciar centenas de vezes suas mortes e os sofrimentos que se sucedem a cada época. A história se resume a contar em cada capítulo uma versão de Luce e seu relacionamento destrutivo com Daniel, levei séculos para terminar de ler porque fiquei entediada com a mesmice do livro. Esperava por mais ação, mas no fim de trata de uma menina que em todas as suas vidas se apaixona pelo mesmo cara, vive um curto romance proibido e morre. É claro que Luce escolhe voltar para Daniel no exato momento em que eles se encontram e ainda não há respostas sobre a ligação que os prende. 

O mundo nĂŁo Ă© dos espertos

Alguém disse uma vez que o mundo é dos espertos, mas o que é ser esperto? Dizem que o esperto é aquele que sempre vence, então acredito que esse tal esperto não seja humano, talvez um folclore, uma criatura mística, algum tipo de ser sobrenatural, não o conheço, talvez ninguém conheça. Jamais conheci um ser humano que sempre vencesse em tudo, a maioria das pessoas reconhecidas como grandes vitoriosas, escondem suas derrotas por baixo do manto sagrado da glória, algumas pessoas são habilidosas em esconder as coisas, principalmente o que lhes vai no íntimo, o que dói, o que envergonha, o que lhes mancha a honra da vitória.

Tolo quem se engana com as aparências dessas ilustres criaturas, ora, somos humanos, meros mortais, fracos, emotivos, medrosos, traumatizados, propensos ao erro e à derrota. Não acredito que o mundo seja dos espertos, porque não acredito que algum mero ser humano seja de fato esperto em tudo, o tempo inteiro. Alguns acham que o esperto é aquele que coloca seus interesses acima dos interesses de outras pessoas, que vencem no grito, na trapaça, na marra, mas acreditem, eles também caem, principalmente quando ficam cegos pelo ego e enxergam o abismo a sua frente, eles se acostumam a ganhar, sempre ganhar, começam a cair na ilusão de que são invencíveis e aos poucos, mortalmente, tornam-se cegos e ignorantes, eles caem sem perceber e quando caem não conseguem se levantar porque não estão acostumados a lidar com a queda.

Acredito que os melhores vencedores sĂŁo aqueles que reconhecem que podem falhar, que podem perder e que já perderam muitas vezes e ainda nĂŁo desistiram de tentar. O mundo nĂŁo Ă© dos espertos, porque eles nĂŁo existem duradouramente, a esperteza que conhecemos Ă© uma armadilha. – E o mundo Ă© de quem? – VocĂŞs devem estar se perguntando – religiosos devem crer que o mundo Ă© de Deus, uma espĂ©cie de princĂ­pio criador, ou espĂ­rito super poderoso que nos julga, condena ou absolve de acordo com suas leis. Materialistas dirĂŁo que o mundo Ă© dos homens que sabem se auto governar e comandar os mais fracos de acordo com seu entendimento de certo ou errado. Eu prefiro crer que o mundo Ă© dos resistem, independente de sermos de espĂ©cie humana ou outro tipo animal.

Se existe algum princípio criador universal, isso nos trouxe até aqui e nos deixou à própria sorte. Sim, o mundo é dos que resistem, tenho certeza, dos que apanham e muitas vezes se calam, dos que ouvem antes de falar, o mundo é dos que caem de cara no chão, curam suas próprias feridas, choram, desabam rios de lágrimas, sentem dor e não as reprimem, gritam e se levantam, ou se rastejam, mas se recusam a ficar parados, o mundo é dos que sabem perder e aceitam suas derrotas, reconhecem seus erros e aprendem com eles, o mundo é dos não desistem de tentar correr atrás do que querem, mesmo quando o vento bate forte contra o peito e tenta os parar. O mundo é dos que sofrem e tentam ser fortes e reconhecer que a verdadeira força, não é enfrentar o outro, mas enfrentar primeiramente a si mesmo.

Resenha: Tormenta de Lauren Kate

Sinopse: Enquanto Daniel está caçando os anjos que querem matar Luce, ela começa a aprender a utilizar as sombras como janelas para suas vidas passadas em Shorelina, sua nova escola. Lá estão alunos com talentos únicos: nefilins, filhos ou descendentes de relacionamentos entre anjos e mortais… Logo Luce está certa de que Daniel está escondendo um segredo mortal, e começa a questionar as consequências desse amor proibido.

Luce agora precisa ficar afastada de Daniel, sua nova condição como não batizada na igreja faz com que ela possa nunca mais voltar a terra caso morra novamente. Daniel continua firme em sua escolha ao ignorar o apelo de boa parte dos anjos caídos e permanecer fiel ao seu amor à Luce, mas essa é uma escolha perigosa. Agora não são apenas os anjos caídos que estão atrás de Luce, outras criaturas querem pegá-la. A condição durante a guerra que se inicia é que Luce fique afastada de Daniel, de todos os seus amigos e sua família em um lugar aparentemente seguro.

Luce é como uma lenda para os nefilins de Shorelina,  escola é um dos poucos lugares onde Luce não pode ser rastreada pelos anjos do outro lado, a presença dos nefilins de alguma forma parece mascarar a presença de Luce. Ela precisa começar tudo de novo, encarar um lugar totalmente diferente, sem saber o que esperar das pessoas que ela vai conhecer. Ela é bem recebida pelos nefilins como nunca havia sido recebida em nenhum outro lugar, seu romance com Daniel e suas várias outras vidas anteriores são lendas para eles. Ela consegue fazer amigos reais e se sentir integrada à algo novo.

No entanto o tempo longe de Daniel, seus novos amigos e as visões do passado que aos poucos ela vai tendo acesso na medida em que aprende a interpretar as sombras anunciadoras, a faz questionar o seu romance com Daniel. Ela começa então a ter dúvidas sobre o passado de Daniel e as escolhas que ele fez. Luce passa a mudar a sua forma de enxergar o mundo e talvez de acordo com essa nova perspectiva, por mais que seu amor por Daniel seja real, não valha tanto a pena o sacrifício. Ela está cansada da superproteção de Daniel, das perguntas não respondidas e de todo o mistério por trás de sua natureza.

Luce quer independência, autonomia e respostas, mais do que tudo, ela quer uma vida normal, mas talvez seja tarde demais, ela já faz parte de um mundo misterioso e incrivelmente perigoso, a escolha foi feita, mais uma vez, ao lado de Daniel, a guerra voltou e talvez não haja mais tempo para voltar atrás. Shorelina não parece tão segura quanto deveria ser, alguns infiltrados tornam-se sérias ameaças. Luce sente-se presa à algo que ela sequer sabe distinguir e totalmente perdida, mais do que lutar por amor, ela precisa lutar por sobrevivência. Luce então faz uma escolha difícil após presenciar um novo e conflito mortal, ela escolhe partir, sozinha em busca de um refúgio para si própria e de respostas.

Começo a gostar mais de Luce a partir desse segundo livro, ela já não é mais a menina passiva,  obcecada pelo namorado incrivelmente poderoso, ela agora investiga o seu passado, questiona e não suporta mais o silêncio. Por mais que ainda ame Daniel, ela não poderia deixar de amá-lo, ela descobre que pode ser independente, ela precisa ser independente, talvez ela possa até ter outros amores, amigos normais, uma rotina simples e segura, talvez ela possa viver sem ele, embora o amor nunca vá morrer, mas ela pode aprender a viver sem esse amor, o destino deles agora é mais incerto do que nunca, Luce está consciente.

Relatos da Mila… O homem sem sobrenome

Ele era um homem cansado, carregava a dor de uma vida nada fácil no olhar, mãos calejadas, cabelo em desalinho e um corpo magro que parecia mais frágil do que realmente era. As pessoas não reparavam muito nele, na verdade até preferiam se afastar, suas roupas em trapos e a cor da sua pele o definiam erroneamente como alguém do tipo que é melhor manter distância, ele está acostumado com os olhares de medo que lhe são lançados todos os dias, ou ainda o olhar de repulsa. 

Criado em berço humilde, perdeu-se na vida ainda jovem, sem estudo e precocemente sem famĂ­lia, dominado pelo vĂ­cio do álcool, ele dormia embaixo de viadutos pela Zona Oeste do Rio de Janeiro, apesar de sua condição, nunca cobiçou tomar do outro o que nĂŁo era seu por direito. Um homem sem sobrenome, sem lar, ignorado pela sociedade, ele nĂŁo tinha perspectivas de uma vida melhor, mas nĂŁo parecia se incomodar, acostumado a rejeição nĂŁo procurava, nĂŁo sabia como procurar um caminho melhor. 

Todas as noites um grupo religioso ia atĂ© os moradores de rua e lhes ofereciam um prato de sopa com pĂŁo, era sua refeição garantida, entĂŁo o homem sem sobrenome sabia que por mais que todos lhe ignorassem, que passasse o dia faminto, catando migalhas, a noite ele teria algo, ele teria por mais simples que fosse, um prato de comida, oferecido por pessoas que te olhavam nĂŁo com medo e repulsa, mas com compaixĂŁo. Ele nĂŁo entendia, acostumado com as brutalidades humanas e a rejeição, o homem sem sobrenome nĂŁo era capaz de entender os motivos daquele grupo que lhe tratava com tanto respeito e compaixĂŁo. 

EntĂŁo o homem sem sobrenome ganhou um amigo, ali com aquele pequeno grupo de pessoas vestidas de branco, ele descobriu que existem pessoas boas no mundo, ele ganhou um presente valioso: um amigo. O portuguĂŞs JoĂŁo Pedro já passava dos 60 anos, sem esposa, com o filho e os netos vivendo em outro estado, ele vivia sozinho e buscava no grupo religioso e no serviço de auxĂ­lio ao prĂłximo um alĂ­vio para a solidĂŁo em que vivia. O velho portuguĂŞs lhe parecia o mais louquinho do grupo, estava sempre rindo, sĂł falava em coisas boas e achava tudo bonito. 

O homem sem sobrenome achava que ele alucinava, via tudo diferente do que realmente era, via um mundo colorido onde só havia preto e branco. Esse velho bobo provou que era mesmo meio maluco e ofereceu ao desconhecido mendigo uma casa, roupas limpas e comida, com a condição de que ele largasse o álcool e frequentasse as reuniões no centro espírita. O Homem sem sobrenome não entendia a lógica desse português maluco, ninguém nunca lhe oferecera nada de graça, mas por algum motivo ele simpatizava com velho, sentia-se confortável com a presença dele. Então ele disse ao velho que aceitaria a proposta mas gostaria de trabalhar.

JoĂŁo Pedro comprou doces de vários tipos e mandou que ele vendesse na rua e guardasse o dinheiro. O Homem sem sobrenome começou a princĂ­pio sem saber o que fazer, mas logo aprendeu as manhas com outros homens que vendiam doces nos Ă´nibus e no trem, ele ainda sentia o olhar de medo e de repulsa em algumas pessoas na rua, sentia a frieza das pessoas que lhe ignoravam e mal olhavam para o seu rosto quando ele entrava com seus doces no Ă´nibus, o que lhe fazia feliz eram os olhares e sorrisos das crianças quando viam o arranjo de doces em sua mĂŁo, as crianças ao contrário da maioria dos adultos ficavam felizes com o seu trabalho. 

O mais difĂ­cil no seu dia-a-dia era manter-se longe do álcool, mas ele nĂŁo podia quebrar uma promessa feita a um homem que de tudo lhe deu, ele nĂŁo magoaria seu Ăşnico amigo. O homem sem sobrenome aprendeu a valorizar as pequenas coisas que a vida lhe dera, passou a crer em Deus e descobriu um mundo colorido que ele nunca acreditou que pudesse existir. E ele que tambĂ©m nunca acreditara na bondade das pessoas, adotou o portuguĂŞs como pai, amigo e anjo de guarda. 

O homem sem sobrenome é só mais um como milhares por aí, dormiu na rua, passou fome, foi confundido com ladrão, comprou uns doces para vender na rua e vive por aí pulando de ônibus em ônibus, pedindo carona, pedindo um pouco da sua atenção, algumas moedas do tanto de dinheiro que você gasta com bobagens. É só mais um ser humano vítima da desigualdade social que assola esse país, tentando o ganha pão por contra própria, buscando o mínimo de dignidade e respeito. Conheci o homem sem sobrenome em um ônibus de Bangu, as 10 hrs da noite, tentando vender as últimas unidades dos doces de amendoim que restavam em sua caixa.

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