Relatos da Mila… O homem sem sobrenome

Ele era um homem cansado, carregava a dor de uma vida nada fácil no olhar, mãos calejadas, cabelo em desalinho e um corpo magro que parecia mais frágil do que realmente era. As pessoas não reparavam muito nele, na verdade até preferiam se afastar, suas roupas em trapos e a cor da sua pele o definiam erroneamente como alguém do tipo que é melhor manter distância, ele está acostumado com os olhares de medo que lhe são lançados todos os dias, ou ainda o olhar de repulsa. 

Criado em berço humilde, perdeu-se na vida ainda jovem, sem estudo e precocemente sem família, dominado pelo vício do álcool, ele dormia embaixo de viadutos pela Zona Oeste do Rio de Janeiro, apesar de sua condição, nunca cobiçou tomar do outro o que não era seu por direito. Um homem sem sobrenome, sem lar, ignorado pela sociedade, ele não tinha perspectivas de uma vida melhor, mas não parecia se incomodar, acostumado a rejeição não procurava, não sabia como procurar um caminho melhor. 

Todas as noites um grupo religioso ia até os moradores de rua e lhes ofereciam um prato de sopa com pão, era sua refeição garantida, então o homem sem sobrenome sabia que por mais que todos lhe ignorassem, que passasse o dia faminto, catando migalhas, a noite ele teria algo, ele teria por mais simples que fosse, um prato de comida, oferecido por pessoas que te olhavam não com medo e repulsa, mas com compaixão. Ele não entendia, acostumado com as brutalidades humanas e a rejeição, o homem sem sobrenome não era capaz de entender os motivos daquele grupo que lhe tratava com tanto respeito e compaixão. 

Então o homem sem sobrenome ganhou um amigo, ali com aquele pequeno grupo de pessoas vestidas de branco, ele descobriu que existem pessoas boas no mundo, ele ganhou um presente valioso: um amigo. O português João Pedro já passava dos 60 anos, sem esposa, com o filho e os netos vivendo em outro estado, ele vivia sozinho e buscava no grupo religioso e no serviço de auxílio ao próximo um alívio para a solidão em que vivia. O velho português lhe parecia o mais louquinho do grupo, estava sempre rindo, só falava em coisas boas e achava tudo bonito. 

O homem sem sobrenome achava que ele alucinava, via tudo diferente do que realmente era, via um mundo colorido onde só havia preto e branco. Esse velho bobo provou que era mesmo meio maluco e ofereceu ao desconhecido mendigo uma casa, roupas limpas e comida, com a condição de que ele largasse o álcool e frequentasse as reuniões no centro espírita. O Homem sem sobrenome não entendia a lógica desse português maluco, ninguém nunca lhe oferecera nada de graça, mas por algum motivo ele simpatizava com velho, sentia-se confortável com a presença dele. Então ele disse ao velho que aceitaria a proposta mas gostaria de trabalhar.

João Pedro comprou doces de vários tipos e mandou que ele vendesse na rua e guardasse o dinheiro. O Homem sem sobrenome começou a princípio sem saber o que fazer, mas logo aprendeu as manhas com outros homens que vendiam doces nos ônibus e no trem, ele ainda sentia o olhar de medo e de repulsa em algumas pessoas na rua, sentia a frieza das pessoas que lhe ignoravam e mal olhavam para o seu rosto quando ele entrava com seus doces no ônibus, o que lhe fazia feliz eram os olhares e sorrisos das crianças quando viam o arranjo de doces em sua mão, as crianças ao contrário da maioria dos adultos ficavam felizes com o seu trabalho. 

O mais difícil no seu dia-a-dia era manter-se longe do álcool, mas ele não podia quebrar uma promessa feita a um homem que de tudo lhe deu, ele não magoaria seu único amigo. O homem sem sobrenome aprendeu a valorizar as pequenas coisas que a vida lhe dera, passou a crer em Deus e descobriu um mundo colorido que ele nunca acreditou que pudesse existir. E ele que também nunca acreditara na bondade das pessoas, adotou o português como pai, amigo e anjo de guarda. 

O homem sem sobrenome é só mais um como milhares por aí, dormiu na rua, passou fome, foi confundido com ladrão, comprou uns doces para vender na rua e vive por aí pulando de ônibus em ônibus, pedindo carona, pedindo um pouco da sua atenção, algumas moedas do tanto de dinheiro que você gasta com bobagens. É só mais um ser humano vítima da desigualdade social que assola esse país, tentando o ganha pão por contra própria, buscando o mínimo de dignidade e respeito. Conheci o homem sem sobrenome em um ônibus de Bangu, as 10 hrs da noite, tentando vender as últimas unidades dos doces de amendoim que restavam em sua caixa.

Relatos da Mila: Um amigo de infância

Um dia desses, indo para faculdade eu encontrei um cão da raça labrador guiando um deficiente visual e dando uma verdadeira lição nos apressadinhos que queriam atravessar na frente dos carros. Fiquei embasbacada com a intelegência de um cão que trabalha com a difícil tarefa de ser os olhos daqueles que não enxergam. Passei o resto da noite pensando nesse pequeno detalhe do meu dia que não durou nem cinco minutos. Isso me fez lembrar do meu melhor amigo de infância, daquele que tanto brincou comigo e nunca me deixou ficar triste. Meu amigo tinho quatro patas, pêlo marrom com uma mancha branca no peito, olhos cor de mel e jeito de safado. Ele tinha porte de labrador mas a mancha branca no peito denunciava sua misticidade de raças.

O Marrom, como era chamado por pura falta de criatividade em criar um nome decente, chegou à família Correia Freire aos poucos, primeiro conquistou o coração do Sr. Correia, meu avô que vira e mexe dava ração para ele na rua, depois conquistou a minha avô acompanhando-a no caminho de casa para o clube e do clube para casa. Marrom virou o guardião do portão aqui de casa, alimentado na calçada e nos acompanhando nos passeios na rua. Por que dar de comer e beber a um cão na rua e não dar também um lugar aconchegante para dormir? Não tem jeito! Com aquele olhar de cachorro abandonado e a educação digna de um lorde, o vira-lata metido a labrador conquistou a todos e logo ganhou um cantinho aconchegante para dormir no quintal.

Porém o Marrom era cachorro de rua, não conseguia ficar trancado por muito tempo em casa, escapulia sempre que alguém abrisse o portão, e não adiantava reclamar, cachorro de rua não se domina. Apesar de rebelde, o bicho era inteligente, minha mãe reclamava de ter que limpar o quintal sozinha e o cão para não incomodar não fazia suas necessidades fisiológicas enquanto alguém não abrisse o portão para deixá-lo ir a rua. Não podímos impedir, ele fugia, fazia o que queria na rua, voltava para casa na hora que bem entendesse, deitava no portão e aí de quem chegasse perto. Não podia passar ninguém na calçada que ele botava pra correr, afinal ele era o guardião do portão.

Mas é curiosa a inteligência desse bicho, certo dia, a vizinha, uma senhora de idade avançada resolveu chegar no portão quando a fera lá estava plantada, ele olhou de cima abaixo, sentou e simplesmente não fez nada, acho que essa foi a primeira pessoa ou talvez a única que chegou no meu portão e guardião não quis atacar. Ele era um bicho de temperamento difícil, e após tentar atacar alguém no portão, meu pai revoltou-se com o cão rebelde e resolveu jogá-lo fora, esse foi o dia mais triste e ao mesmo tempo mais feliz da minha infância.

Colocamos o Marrom dentro do carro, ele adorava passear conosco mas sempre preferiu ir correndo ao redor do carro, ele me olhava angustiado e eu queria chorar, mas não pude falar nada, não podia desafiar o meu pai. Levamos ele para outro bairro, o botamos para fora do carro e fomos embora, senti uma tristeza tão grande que não consigo descrever. Alguns minutos depois de chegar em casa, eu tentava superar o vazio no quintal, quando vejo chegando quase morrendo com a respiração acelerada, o meu amigo rebelde. Já era! Ele aprendeu o caminho de casa! E o meu pai, afinal, aprendeu a lição, o cão atravessou o bairro e voltou para casa, com a língua para fora, o rabo balançado e os olhinhos brilhando, ele parecia dizer que jamais nos deixaria. Não fomos nós que escolhemos, foi o cão que nos escolheu. Meu pai e o Marrom se tornaram grandes amigos, e nunca vi meu pai se emocionar falando de um cachorro.

O Marrom era o meu guia, quando queria saber para onde o meu pai havia ido, eu abria o portão e pedia para ele me levar até o pai, ele olhava para os lados da rua, parecia farejar o ar e saía correndo na minha frente, eu seguia, ele parava em cada esquina para me esperar e voltava a correr, eu sabia que ele me levaria ao lugar certo. E quando o meu pai sentando no bar via o Marrom correndo em sua direção, já sabia que logo a patrulha viria atrás. Além de guia, ele também era segurança, nós tinhamos o hábito de andar pelo bairro de bicileta, podíamos ir ao mercado e deixar a bike destrancada do lado de fora que lá ficava o Marrom tomando conta, e ninguém ousava chegar perto do objeto assegurado pelo bicho.

Uma vez saímos todos de carro para uma festa junina, o Marrom fugiu assim que abrimos o portão e não vimos para onde ele foi, durante a festa nós pergutamos se ele estaria no portão de casa tentando morder quem chegasse perto, afinal ele não tinha nos seguido. Quando íamos em direção ao carro, já era tarde de noite e abandonávamos a festa, vimos de longe um cão deitado ao lado do carro, quando chegamos mais perto lá veio ele abanando o rabo e fazendo festa, ele não encontrou os donos mas achou o carro e lá ficou tomando conta.

Esse cão é uma das melhores lembranças que eu tenho da minha infância, tive vários cães ao longo da minha existência, mas nenhum foi tão fiel à família quanto ele. Lembro de quando o Flamengo ganhou um campeato e saimos de carro buzinando pelo bairro, com a bandeira cobrindo o carro, várias pessoas de preto e vermelho no calçadão celebrando, e claro, lá estava o Marrom, como se fosse um flamenguista, correndo na frente no carro e latindo, e as pessoas brincando conosco. Não havia um só momento triste ao lado dele, ele parecia saber ler as emoções das pessoas, fazia de tudo para agradar, e várias vezes eu achava que ele era um humano em forma de cão, nunca vi bicho mais inteligente, sabia atravessar a rua, fazer as necessidades no lugar certo, entendia o que falávamos, menos a parte de que não era certo brigar com o gari e o carteiro.

A única recordação ruim que eu tenho com o meu amigo foi quando ele apareceu em casa com uma parte do crânio amassada, ele não gostava dos carroceiros que passavam na rua, e certa vez levou uma pedrada de um ser humano cruel, só porque ele estava latindo para a carroça. O ferimento afetou o crânio e não havia chance de recuperação, não quis vê-lo nesses últimos dias, não aguentei ver o sofrimento do meu amigo, não me despedi, prefiri pensar que ele ainda estava na rua fazendo bagunça. Sofremos com a morte dele como se ele fosse um humano, uma pessoa importante na família, sei que nunca vou encontrar um cão que o substitua, ele era super inteligente, divino, único. Certas coisas só acontecem uma vez na nossa vida, e o que eu vivi com esse amigo eu sei que não viverei novamente.

Relatos da Mila: Atravessar ou não a rua?

Estava parada tentando não enlouquecer com as buzinas irritantes dos carros. Rodoviária de Campo Grande, zona oeste do Rio, fim de tarde, comecinho da noite, pessoas saindo do trabalho com pressa, alguns saindo da escola e outros indo para faculdade, todos numa ânsia como se vivêssemos o última dia de vida no planeta Terra. O sinal ainda estava verde para os carros, mas devido ao engarrafamento, as pessoas tentavam atravessar, ignorando as buzinadas constantes dos motoristas de ônibus.  Por um instante eu pensei como me sentiria no lugar do motorista, com hora para cumprir viagem, tendo que ter paciência com o trânsito terrível do horário e ainda esperar os desesperados acabarem de atravessar por entre os ônibus. Não tive coragem de atravessar, afinal o sinal ainda estava verde e eu me colocava no frustrante lugar do motorista. Eis que alguém me empurra, uma mulher segurando uma criança pela mão e ainda exclama – se não vai atravessar saia do caminho! Fiquei tão boba e foi tudo tão rápido que não tive resposta. Em meio a minha indignação com o comportamento das pessoas, aparece um cão ao meu lado, um labrador champanhe, daqueles lindos dignos de um filme, guiando um deficiente visual, educadamente o cão parou na calçada ao meu lado e me fez companhia atrapalhando a passagem dos desesperados, como mais ninguém notou um bichinho tão fofo? Ele olhava para os carros tentando passar e também não devia estar entendendo o desespero e a falta de respeito das pessoas, apenas quando o sinal fechou e os carros pararam atrás da faixa ele atravessou guiando o seu dono educadamente, como um lord canino. Como pode um ser dito irracional ter mais educação do que nós, seres racionais ditos civilizados? Fui para a faculdade, cheguei atrasada e  talvez tivesse chegado no horário se tivesse atravessado mais rápido ou se o meu ônibus não ficasse tanto tempo tentando atravessar em um sinal que ninguém respeita. Passei a noite pensando naquele cão e em todos os vira latas, poodles e Pit Bulls que eu já tive na vida, e realmente entendo as razões de quem criou a frase “quanto mais eu conheço as pessoas mais eu amo o meu cachorro”. 

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