Rita Lee – outra autobiografia

Publicada em 2023, essa foi a última autobiografia da Ritinha, em meio a pandemia da COVID 19 e todos os desafios da pandemia, Rita Lee enfrentava um desafio pessoal gigantesco, a descoberta de um câncer no pulmão. 

Em seu livro, Rita narra toda a sua trajetória após a descoberta da doença, as primeiras sessões de quimioterapia, as internações, a decisão de raspar a cabeça, o relacionamento com as enfermeiras e outros pacientes oncológicos, e o mais difícil, a vontade de desistir e a escolha por continuar a lutar.

Rita nos mostra mais uma vez o quanto ela foi uma mulher guerreira e destemida, enfrentando a fragilidade da doença com força, fé, esperança e bom humor. Ela também nos fala de política, sociedade, espiritualidade e dá conselhos valiosos para as gerações mais jovens. Achei que esse fosse ser um livro triste e dificil de ler, mas a narrativa lúcida e bem humorada de Rita Lee torna tudo mais leve.

O livro conta com relatos emocionantes e trás um álbum de fotos inéditas da vida pessoal da artista, inclusive registros dos últimos momentos de sua vida na terra. Rita nos deixou em maio de 2023, mas seu legado é e deve continuar sendo eterno. Viva Rita Lee!

Rita Lee – uma autobiografia

Rita Lee – uma autobiografia é uma biografia emocionante narrada pela própria Rita, onde ela conta suas aventuras, seus traumas, seus amores, sonhos e sentimentos mais profundos. Uma história super intensa, como a própria Rita, um exemplo de força e coragem. Rita relata não apenas a sua carreira artística, mas também a sua infância, adolescência e a história de sua família. A roqueira abre o jogo sobre detalhes íntimos como a violência sofrida na infância, o vício, as internações, a prisão e os discos, no qual ela detalha como cada obra foi criada, o contexto de cada música escrita e como ela própria avalia suas criações.  

A paulistana criada na Vila Mariana mostra o seu amor pela família, seus pais, irmãs e os muitos bichos de estimação que teve ao longo da vida. De forma bastante detalhada ela narra seu início no mundo da música, as primeiras composições, as primeira vaias e os primeiros sucessos. Ela conta sua trajetória nos mutantes, sua expulsão da banda e sua decisão de seguir carreira solo e provar que mulher também pode fazer rock.  A artista também fala sobre a ditadura, as músicas censuradas e a prisão armada de forma bem golpista como uma espécie de retaliação à atriz – Elis foi seu anjo de guarda, foi visitar a amiga na cadeia e fez um verdadeiro escândalo, Rita estava grávida e correndo o risco de perder o bebê quando foi solta. 

Rita e Elis eram grandes amigas e Rita dedica muitas passagens à Elis, relembrando momentos saudosos e declarando seu imenso carinho pela diva da MPB. Rita também conta sobre sua amizade com personalidades como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Ney Matogrosso, Paulo Coelho e Raul Seixas. Rita interpretou Raul Seixas no filme “Tanta Estrela por aí” em 1992, mostrando seu talento não só com a música, mas também no cinema. Multitalentosa, inteligentíssima e super criativa, Rita se aventurou nos cinemas e também na literatura, escrevendo vários livros infantis.      

Rita Lee foi pioneira em muitos sentidos, foi uma personalidade autêntica, irreverente e inigualável. Não teve medo de se mostrar, se posicionar e lutar pelo seu espaço. O livro carrega toda essa intensidade da Rita e consegue transferir sua essência ao leitor. Trata-se de uma autobiografia de verdade, narrada pela própria Rita que fala o pensa sem pudores. Rita fala abertamente sobre a política, a militância, a religião, e os costumes da sociedade. Ela defende as mulheres e os animais. Ela assume quem ela é de forma honesta, humilde, autocrítica e autoconsciente. Rita Lee – uma autobiografia é o incrível diário de uma Ovelha Negra, um deleite para os fãs.  

A Garota Que Bebeu a Lua de Kelly Barnhill

Sinopse: Uma fábula sobre aceitação, amor, amadurecimento e o poder da memória. Da autora de O filho da feiticeira, considerado o Livro do Ano pelo Washington Post. Todo ano o povo do Protetorado deixa um bebê como oferenda para a Bruxa que vive na floresta, na esperança de que o sacrifício a impeça de aterrorizar sua pequena cidade protegida pelos muros e pela Torre das Irmãs da Guarda. Mas, Xan, a Bruxa na floresta, ao contrário do que eles acreditam, é bondosa. Ela vive em paz com um Monstro do Pântano muito inteligente e um Dragão Perfeitamente Minúsculo.
Todo ano ela resgata o bebê deixado pelos Anciãos e o leva em segurança para uma família adotiva em uma das Cidades Livres do outro lado da floresta. Durante a longa viagem, quando a comida acaba, Xan alimenta os bebês com luz estelar. Em uma dessas ocasiões ela acidentalmente oferece a um deles a luz do luar, dotando a menininha de uma magia extraordinária.
A bruxa então decide criar a menina “embruxada”, a quem chama de Luna. Conforme o aniversário de treze anos da menina se aproxima, sua magia começa a aflorar – e pode colocar em perigo a própria Luna e todos à sua volta.

Kelly Bamhill é uma autora de livros de fantasia infanto-juvenil e poesias, norte americana que ficou conhecida pelo livro O Filho da Floresta, considerado o livro do ano de 2017 pela Washington Post, ainda não li esse livro mas com certeza está na minha lista. Ganhei esse livro de presente da minha madrinha,a princípio achei que seria um livro muito infantil, mas logo nos primeiros capítulos fui me apegando a leitura. Apesar de ser um livro de fantasia infanto-juvenil, é uma história repleta de emoções e lições importantes e personagens intrigantes. A história se passa em uma cidadezinha pequena controlada por um homem mau que parece bom e manipula as pessoas para aceitarem seus atos inescrupulosos e uma bruxa boa que é vista como malvada. 

Os moradores do Protetorado, vivem cercados por muros em uma cidadezinha cinzenta que parece nunca ver a luz do sol, uma aura de tristeza toma conta da cidade dominada pelo medo e pela dor. Sob o governo dos Anciãos e das Irmãs da Guarda, o povo acredita que a cidade é amaldiçoada por uma bruxa terrível que vive na Floresta e ninguém deve ousar passar pela Floresta ou pelos muros da cidade. Todos os anos, sempre à mesma época, um bebê recém nascido deve ser levado como oferenda para a bruxa, sob determinação do conselho dos Anciãos, a criança é tirada de sua família e levada para debaixo de uma árvore à beira da Floresta, onde acreditam que a Bruxa vai buscá-la. 


Gherland é o Guardião Grão-Ancião do Conselho dos Anciões, um homem severo, prepotente, respeitável e temido por todos, mas não tão temido por Antain, seu sobrinho e Guardião em treinamento. Antain acompanha o tio nas incursão atrás da criança que será oferecida em sacrifício, mas ele demonstra não concordar com a  prática e passa a questionar seu tio. Antain acredita que deveriam tentar negociar com a bruxa, ao invés de simplesmente largar um bebê na floresta e dar a volta sem olhar para trás. Com sua curiosidade, coragem e esperteza, o aprendiz de Guardião se torna um personagem fundamental no desenrolar dessa história.  

Chega o dia de mais um sacrifício, Gherland embora se irrite com os questionamentos de seu sobrinho, o obriga a participar do ato, mais um bebê é escolhido, uma menina recém nascida, porém um ato inesperado acontece, a mãe da criança se recusa a entregar a sua filha, isso nunca havia acontecido, as mães sempre acreditaram que esse era um mal necessário. Gherland e sua equipe tomam a criança a força e a levam para beira da floresta. A pobre mãe indignada é tratada como louca por seu ato de rebeldia e levada para uma espécie de prisão junto às Irmãs da Guarda.

Em paralelo, a velha Bruxa Xan, como faz todos os anos, sempre na mesma data, atravessa a floresta para buscar o bebê, ela não entende porque isso acontece, desconhece a razão pela qual aquele povo todo ano deixa um bebê abandonado ao relento à beira da Floresta, ela não gosta da energia daquela cidade e nunca procurou questioná-los, ela simplesmente pega o bebê e o leva para as cidades livres, onde há famílias bondosas que adotam às crianças com felicidade. Xan sempre leva mamadeiras durante a viagem, mas se a mamadeira acaba e a criança sente fome, ela a alimenta com energia estelar.

“Deixaram a menina ali sabendo que certamente não existia bruxa alguma. Nunca existiu uma bruxa. Havia apenas a floresta perigosa e uma única estrada e um controle tênue de uma vida da qual os Anciãos gozaram por gerações. A Bruxa – ou melhor, a crença de que ela existia – tornou o povo aterrorizado e subjugado, um povo submisso, que vivia a vida em um nevoeiro de tristeza, e as nuvens de sua tristeza adormeciam seus sentidos e encharcavam suas mentes. Era terrivelmente conveniente para um governo livre e desimpedido dos Anciãos. Era desagradável também, mas isso não poderia ser evitado.”

Apesar da idade avançada, Xan estava lá novamente resgatando a menininha abandonada, um belo bebê de pele branca, com cabelos negros encaracolados e uma marca na testa que lembrava uma meia lua, a bruxa então a batizou de Luna. Aquele bebê era demasiado faminto, e logo consumiu todas as mamadeiras, a velha bruxa então lhe alimentou com luz estelar, porém em dado momento ela cometeu um erro, o que fez com que a menina fosse alimentada pela luz lunar, uma luz repleta de energias mágicas, Xan ficou desesperada ao perceber que a menina havia sido embruxada. 

Xan não poderia levar uma criança embruxada para ser adotada por uma família convencional, eles não saberiam lidar com os poderes dela quando sua magia começasse a crescer dentro de si. A bruxa então adotou a menina e a levou para morar junto de si na floresta com seu mini dragão e seu monstro do pântano, criaturas muito mais dóceis do que se parece. Eles formaram uma verdadeira família feliz, porém ao fazer 13 anos, Luna começa a ter os seus poderes aflorados, enquanto Xan começa a enfraquecer. A magia de Luna se torna cada vez mais forte e perigosa para todos, inclusive para ela mesma e uma ameaça perigosa se aproxima cada vez mais da velha Xan e seus protegidos.

Por outro lado, no triste e pacato Protetorado, Antain não é mais um garoto, ele agora é um homem comprometido e prestes a ser pai e seu bebê é um dos ameaçados para o sacrifício. Antain decide então enfrentar a bruxa, enfrentar seu tio e impedir que o sacrifício aconteça. Ele busca por informações com a louca da torre, que é simplesmente a mãe biológica de Luna, arma um plano e encara a floresta e não demora muito para ele descobrir toda a verdade. A cidade sofre sim de um mal terrível, mas não é culpa da velha bruxa da floresta, e isso não é nenhum spoiler, pois é muito bem explicado no comecinho do livro. Antain, a louca da Torre, Luna e a velha Xan se unem em um objetivo em comum. 

O livro é uma aventura leve e divertida, cheia de mistérios e encantos, ótimo para estimular a leitura de crianças e adolescentes, mas pode muito bem agradar ao público mais velho que gosta de fantasias. Aqui não temos um personagem principal, temos vários personagens importantes, personagens com personalidades complexas e realidades diferentes cujo os caminhos se cruzam. Uma leitura suave, bastante criativa, com um toque de suspense que prende a nossa atenção do início ao fim e com um desfecho muito bem construído. Não posso deixar de mencionar a beleza da capa e o apelo poético em alguns trechos, afinal a escritora também escreve poesias e trás um pouco desse lado para o livro. Comecei o livro sem grandes expectativas, mas me surpreendi de forma bastante positiva. 

Meus clássicos da literatura favoritos

1) Dom Quixote

Esse livro sem dúvida foi o ponta pé inicial na minha história de amor com a literatura. Eu era uma criança que não gostava muito de ler, detestava os livros paradidáticos lidos na escola, talvez pela pressão e obrigação de ler. Esse foi um livro que não tive que ler por obrigação, li por curiosidade, minha mãe me dizia que era uma história engraçada e eu me apaixonei por essa história louca, divertida e irreverente. Tive uma versão pocket e uma versão clássica de colecionador. Dom Quixote é um idealista, corajoso e obstinado em sua luta contra os monstros que só existem em sua mente, um cavaleiro lutando por justiça em meio a insanidade e a descrença. Essa é uma história sobre a superação de si mesmo durante as lutas muitas vezes patéticas que enfrentamos em sociedade.

2) Alice no país das maravilhas

Resolvi ler esse livro depois de ver o filme e me apaixonar pela Alice e pelo chapeleiro maluco. É o meu conto favorito, a história de uma garotinha que cai em um buraco de coelho e descobre um universo paralelo repleto de mistérios e magias. Com sátiras e metáforas, a história é uma crítica ao moralismo e superficialidade da sociedades inglesa durante o reinado da rainha Vitória e o abandonado das convenções sociais tendo a loucura como escapismo. O louco chapeleiro é talvez um dos personagens mais sábios dessa história e Alice é um simbolo de coragem, determinação e heroísmo. A história trás uma lição sobre coragem e autenticidade, sobre o que somos capazes de fazer quando não desistimos de nós mesmos.

3) Gabriela, cravo e canela

Ganhei esse livro da minha madrinha, já tinha assistido a minissérie baseada nessa história e sempre gostei bastante. O livro é ainda melhor do que todas as adaptações já feitas pela TV Globo. Um romance simples que passa em uma época bastante complexa em uma sociedade dominada por um moralismo hipócrita herdado pela influência européia no Brasil. Gabriela é uma mulher que gosta dos prazeres da vida e dos homens bonitos, gosta de ser cortejada e gosta também do Sr. Nacib e o Sr. Nacib se apaixona por Gabriela, mas quer que ela se encaixe nos padrões de mulher recatada e polida. Com uma narrativa riquíssima, Jorge Amado nos faz viajar entre cores, aromas e texturas.

4) Dom Casmurro

A famosa obra de Machado de Assis trata A da complexidade das relações afetivas, a forma como as convenções sociais influenciam na maneira como as pessoas vivem seus relacionamentos afetivos, a imaginação humana, o amor possessivo e egoísta de pessoas desequilibradas e o poder de influência da mente humana. Com uma narrativa instigante, o autor nos faz refletir sobre inúmeras possibilidades, um romance leve e ao mesmo tempo complexo porque envolve personagens complexos. O livro apresenta uma crítica social a sociedade que julga e condena as mulheres à submissão, e também em relação a forma mal como as mulheres pobres e humildes são vistas pela sociedade. Capitu era pobre, sem muita classe e ao se casar com um homem rico é julgada por não ser uma mulher modelo. A propósito Capitu não traiu.

Resenha: Sociedades Secretas – Sérgio Pereira Couto

Sinopse: Conduzido pela misteriosa Oráculo, essa obra é uma investigação minuciosa que revela os rituais, cerimônias e regras de cada uma dessas Sociedades Secretas. Seu instigante enredo coloca o leitor dentro de sociedades como o Priorado de Sião, ordem que Leonardo da Vinci teria participado como grão-mestre e que foi abordada em O Código da Vinci, de Dan Brown. Revela também o que Jack, o Estripador, Rui Barbosa, Beethoven, Mozart e a Maçonaria têm em comum, discute o suposto casamento entre Jesus com Maria Madalena e revela a Sociedade Illuminati, abordada em detalhes no livro Anjos e Demônios, também escrito por Dan Brown. Suspense e revelações surpreendentes são os ingredientes desta obra que mistura ficção e realidade, revelando os mistérios dessas sociedades. A cada capítulo, os personagens se envolvem em situações cada vez mais perigosas, e o final surpreendente revela que eles podem ter ido longe demais.

Para quem se interessa por assuntos relacionados à sociedades secretas deseja conhecer um pouco melhor sobre esses grupos misteriosos, esse livro pode ser um bom começo. Sergio Pereira Couto é jornalista e escritor brasileiro, que dedica-se atualmente à carreira de escritor e realiza pesquisas sobre a história e os rituais das grandes sociedades secretas que tanto despertam curiosidades. Ela trás uma visão simples e direta sobre as sociedades que apresenta e procura se esquivar de polêmicas e grandes conspirações. 

A história começa com uma pesquisa simples entre dois amigos jornalistas em busca de conteúdo para lançar um livro de introdução à algumas sociedades ditas secretas, eles recebem ajuda de uma mulher denominada como Oráculo, que os coloca em contato com representantes de cada sociedade em funcionamento no Brasil, mas o mistério é que o Oráculo se recusa a aparecer e eles não sabem ao certo com quem estão lidando. A princípio ela parece ser apenas alguém tentando ajudar, mas o tempo faz trazendo sinais de alerta.

Começamos então a conhecer um pouco dos princípios de sociedades como a Maçonaria, Rosa Cruz, Illuminati, Priorado de Sião, Ordem dos Cavalheiros Templários, Demolay, Sociedade Teosófica, e até mesmo uma sociedade vampírica. Até metade do livro tudo parece bem tranquilo e realista, mas a verdadeira aventura começa, e o realismo ganha ares de ficção. Os dois amigos tornam-se rivais, e quando Sergio deseja afastar-se do assunto, ele acaba tenho que se unir a representantes de algumas sociedades em uma perigosa aventura pela Europa, na luta contra uma nova sociedade fanática que visa dominar o mundo. 

Sim, parece ridículo essa história de sociedades querendo dominar o mundo, mas na verdade isso é mais realista do que se pode imaginar. O livro não é uma apologia contra ou a favor de algum tipo de sociedade, é apenas uma forma de apresentar uma introdução dessas sociedades tão pouco compreendidas e muitas vezes vítimas de uma visão equivocada. Mas é claro que um livro sobre o assunto merece um toque de aventura, e a caça ao tesouro, bem ao estilo Dan Brown, trás a lição de que o errado não são as principais sociedades que existem, e sim o fanatismo dos que desejam obter um conhecimento que não estão preparados para receber.

Sim, parece ridículo essa história de sociedades querendo dominar o mundo, mas na verdade isso é mais realista do que se pode imaginar. O livro não é uma apologia contra ou a favor de algum tipo de sociedade, é apenas uma forma de apresentar uma introdução dessas sociedades tão pouco compreendidas e muitas vezes vítimas de uma visão equivocada. Mas é claro que um livro sobre o assunto merece um toque de aventura, e a caça ao tesouro, bem ao estilo Dan Brown, trás a lição de que o errado não são as principais sociedades que existem, e sim o fanatismo dos que desejam obter um conhecimento que não estão preparados para receber.

A leitura começa de forma interessante, mas despretensiosa e um pouco lenta,os personagens principais entrevistam pessoas importantes de cada uma das sociedades e sua apresentação é limpa e pouco tendenciosa. No meio do livro as coisas começam a ficar mais interessantes quando um dos jornalistas resolve entrar para a tal sociedade maléfica. As pessoas não são bem quem elas parecem ser, e quem parece ser do mal não é tão do mal assim. Algumas das sociedades apresentadas são bem interessantes e nos despertam a curiosidade de buscarmos mais sobre o assunto. 

O livro tem um toque bem ao estilo O Código da Vinci, de Dan Brown, porém menos empolgante, talvez por ser mais direto ao ponto, mas é uma aventura instigante e gostosa de ler. Já li esse livro duas vezes e a empolgação da segunda leitura foi a mesma da primeira vez. Aventura, mistério, violência, um romance morno, também no estilo dos romances de Dan Brown, e menções a sociedades fascinantes como a sociedade teosófica e sociedade vampírica. Uma leitura nacional com toque estrangeiro, que vale muito a pena. 

Resenha: Filhos do Éden – Anjos da Morte de Eduardo Spohr

Sinopse: Desde eras longínquas, os malakins, anjos estudiosos e sábios, observaram em silêncio o avanço da humanidade. Eis que chega o século XX e com ele o avanço das armas modernas e a poluição das indústrias, afastando os seres mortais da natureza divina , alargando as fronteiras entre o mundo dos humanos e as sete camadas celestes. Isolados no paraíso e incapazes de enxergar o que se passa na terra, os malakins solicitam a ajuda dos exilados, celestiais pacíficos que anos atrás atuavam na terra convivendo com os seres humanos. Esses exilados são reenviados à terra com a função de participar  das guerras que estão por vir e anotar todas as façanhas militares, os movimentos das tropas e repassar as informações aos seus superiores alados. Sob o disfarce de alados comuns, esse grupo esteve presente nas principais guerras da história, participando das lutas ao lado dos humanos, embora muitos não desejassem matar, foi isso que lhes foi ordenado e foi justamente isso o que acabaram fazendo, daí nasceram os anjos da morte. Filhos do Éden: Anjos da Morte é uma obra épica, com personagens incríveis e detalhes cheios de misticismo que ultrapassam a fronteira do tempo, acima de tudo é um relato histórico sobre as guerras que transformaram a humanidade, uma crítica a corrupção dos governos, aos massacres e a violência selvagem dos humanos.

Anjos da Morte é o segundo livro da série Filhos do Éden de Eduardo Spohr, o autor do best-seller A Batalha do Apocalipse. No primeiro livro Filhos do Éden: Herdeiros de Atlântida, conhecemos Kaira uma ishin com o poder de controlar o fogo, que perdida no Rio de Janeiro tem suas memórias roubadas e conta com a ajuda de vários celestiais enviados à terra justamente para ajuda-la a concluir sua missão, mas quem se torna o personagem principal na recuperação de Kaira é Denyel, um querubim problemático, cheio de mistérios, de caráter duvidoso, mas que acaba se sacrificando em nome de Kaira e seus amigos. 

Anjos da Morte começa com Kaira se reunindo com os seus amigos para uma missão secreta, encontrar Denyel, sem saber se o querubim está vivo ou morto, a ishin de fogo vai contra as regras de seu líder, o arcanjo Gabriel e parte em uma missão perigosa atrás de Denyel. Diferentemente do primeiro livro da série, a história se passa em dois tempo diferentes, no tempo presente com Kaira e seus amigos na busca por Denyel, e no passado contando as perigosas aventuras de Denyel como um anjo da morte.

O personagem principal desse livro é o misterioso querubim que tanto despertou curiosidade no livro anterior. Denyel foi um anjo da morte, enviado à terra para participar das principais guerras da história da humanidade, e que após o fim da segunda grande guerra, tornou-se um anjo mercenário usado como instrumento pelos malakins para caçar outros celestiais que viviam na Haled, Denyel tornou-se uma máquina de matar, mesmo que a princípio fosse contra a violência, ele não sabia como se rebelar contra as ordens dos malakins e sofreu as consequências dos prejuízos que causou.

A história de Denyel no passado, a violência que ele presenciou nos faz entender os motivos que o levaram ao exílio total, a sua vivência na terra fez com que ele se torne um ser humano por completo, cheio de sentimentos, contradições, vícios carnais e muitos pecados. Condenado a eternidade como todo celestial e sem poder voltar a céu sob o risco de punição por causa das suas atitudes, Denyel observou as várias eras da humanidade, as mudanças no cenário terrestre e se auto condenou a viver para sempre recluso, amargurado por todas as vidas que tirou e afogando suas mágoas no álcool.

Para entender a história de Anjos da Morte é preciso ler primeiro Herdeiros de Atlântida, um é o complemento do outro. Anjos da Morte é uma história incrível, mais empolgante do que o livro anterior, com mais ação, mistério e aventura, as peças se encaixam melhor, conseguimos entender com mais clareza a origem e personalidade dos personagens. Depois desse livro estou ansiosa para ler o terceiro livro, Filhos do Éden: Paraíso Perdido. Meu livro favorito do autor continua sendo A Batalha do Apocalipse, e só tenho uma coisa a dizer: Eduardo Spohr é o melhor escritor brasileiro desta geração. 

Resenha: Há dois mil anos – Chico Xavier

Sinopse: Quando eu errava no mundo, Triste e só, no meu caminho, Chegaste, devagarinho, E encheste-me o coração. A partir da psicografia de Francisco Cândido Xavier, o Espírito Emmanuel descreve a existência física em que foi Publius Lentulus, orgulhoso senador designado para alto cargo na região da Palestina quando Jesus apresentava os ensinos de seu evangelho à humanidade. Tendo como cenário o Cristianismo nascente do século I, Há dois mil anos mostra embates entre a arrogância das famílias patrícias e a simplicidade fraterna dos primeiros cristãos, numa trama em que opostos como sofrimento e alegria, esplendor e miséria, poder e escravidão, crueldade e benevolência, perdão e vingança se entrelaçam na realidade familiar de Publius Lentulus, interferindo em sua relação com os filhos e com a amada esposa Lívia, convertida aos sublimes ensinamentos de Jesus a contragosto do esposo.

Publius não era um homem essencialmente ruim, amava a família, honrava a esposa e os filhos, mostrava ter caráter, mas como senador do Império Romano, precisava demonstrar uma postura firme e fidelidade aos propósitos do Império. Publius Lentulus foi uma das encarnações do espírito Emmanuel por meio do qual Chico Xavier publicou vários livros. A história se passa durante o período do Império Romano e a popularização da figura de Cristo como messias até a sua crucificação. 

Publius Lentulus era um homem orgulhoso, detinha um cargo importante, era prestigiado pela alta sociedade, apesar de afetuoso com a família era também muito exigente e apegado à matéria. Em contrapartida, sua esposa Lívia era uma mulher simples, não se importava em fazer figura importante de acordo com os seus títulos, não se sentia muito à vontade com a alta sociedade, era o oposto de Lentulus, se dedicava ao cuidado com os filhos e organização da família. 

Publius e Lívia tinham um casamento tranquilo, apesar das diferenças de personalidade e realmente se amavam, as coisas começam a se complicar quando Flávia, a filha do casal, acaba contraindo lepra, doença até então incurável. A família se muda de Roma para Cafarnaum, onde começam a ouvir sobre as histórias de Jesus. Lívia demonstra cada vez mais interesse nas histórias do mestre nazareno e resolve procurá-lo em busca de ajuda. 

Publius atende o pedido de sua esposa, procura as escondidas pelo mestre e pede a cura de sua pequena Flávia, Publius encontrar-se com Jesus e fica chocado com suas palavras, mas seu orgulho de um senador Romano o impede de reconhecer a sabedoria daquele homem humilde que falava coisas grandes e pregava idéias revolucionárias e contrárias ao modelo social da época. Flávia, apesar da descrença de seu pai, tinha fé e vontade de se curar e consegue pela graça divina a sua cura. 

Lívia, agradecida e bastante tocada pelas palavras afetuosas do mestre, torna-se seguidora de Jesus, mesmo indo contra ao seu marido, passa a acompanhar seus passos em sua caminhada ao lado dos pobres, doentes e desafortunados. Quando Jesus é crucificado e seus seguidores são perseguidos, Lívia se encontra entre eles, ela dá sua vida por Jesus, seu testemunho é tocante e sua fé é inspiradora. O senador sofre um misto de culpa, revolta e arrependimento. 

A história é muito mais do que eu poderia expressar, fala sobre orgulho, vaidade, traição, poder, fé e amor. Fala sobre como as pessoas deixam de fazer o que lhes vai no coração para fazer o que seus cargos determinam, a necessidade de representar um papel, a preocupação com a imagem e com a opinião pública. O livro é incrível, uma leitura agradável, nos mantém entretidos do começo ao fim, dá vontade de ler o livro inteiro de uma só vez. A história é trágica, o Império Romano era trágico, a passagem de Jesus pela terra foi trágica, mas a mensagem que essa história deixa é linda e deve ser eternizada. 

Resenha: Filhos do Éden – Série Herdeiros de Atlântida de Eduardo Spohr

Sinopse: Há uma guerra no céu. O confronto civil entre o arcanjo Miguel e as tropas revolucionárias de seu irmão, Gabriel, devasta as sete camadas do paraíso. Com as legiões divididas, as fortalezas sitiadas, os generais estabeleceram um armistício na terra, uma trégua frágil e delicada, que pode desmoronar a qualquer instante. Enquanto os querubins se enfrentam num embate de sangue e espadas, dois anjos são enviados ao mundo físico com a tarefa de resgatar Kaira, uma capitã dos exércitos rebeldes, desaparecida enquanto investigava uma suposta violação do tratado. A missão revelará as tramas de uma conspiração milenar, um plano que, se concluído, reverterá o equilíbrio de forças no céu e ameaçará toda vida humana na terra. Ao lado de Denyel, um ex-espião em busca de anistia, os celestiais partirão em uma jornada através de cidades, selvas e mares, enfrentarão demônios e deuses, numa trilha que os levará às ruínas da maior nação terrena anterior ao dilúvio – o reino perdido de Atlântida.

Uma guerra entre os arcanjos cruza os céus e pode causar impactos na sociedade humana. O exército de Miguel entra em choque com soldados revolucionários das tropas de Gabriel, devastando as inúmeras camadas do paraíso. Os querubins de várias castas são enviados a terra em diferentes missões e dois anjos recebem a missão de resgatar Kaíra, uma ishim do fogo, capitã dos exércitos rebeldes, que desaparecerá na Terra enquanto investigava uma suposta violação de um tratado feito entre os arcanjos. 

A missão revela mistérios de uma conspiração milenar, esquecidos pelo tempo, um plano que se concluído destruirá o equilíbrio no planeta, revertendo as forças no céu e ameçando toda a vida na terra. Com a ajuda de Denyel, um safado querubim, ex expião das tropas de Miguel, que exilado na Terra, busca anistia no exército inimigo, os celestiais partem em uma missão entre cidades e lugares inimagináveis, selvas e mares, numa perigosa trilha que os leva às ruínas do antigo império da maior nação terrena anterior ao grande dilúvio, as ruínas de Atlântida.

A Eterna guerra entre os arcajos, a imprevisibilidade do futuro na Terra, um arcanjo guerreiro exilado, e uma ishim da província do fogo, a centelha divina, uma celestial poderosa, mas sem memória e sem o controle dos seus poderes. Essas são as características principais do segundo livro de Eduardo Spohr, o autor de A Batalha do Apocalipse, que trouxe para os brasileiros um novo estilo literário. Assim como A Batalha do Apocalipse, a história se passa também no Brasil, em grande parte no estado do Rio de Janeiro, mas também conhecemos templos sagrados escondidos e as ruínas de Atlântida, a maior civilização terrena, antes do dilúvio que praticamente destruiu a vida na terra.

Filhos de Éden é o primeiro livro da série Herdeiros de Atlântida, que apesar das semelhanças com A Batalha do Apocalipse, trata-se de uma história à parte, paralela ao livro anterior. A obra apesar de não ter tantos detalhes e não dar tantas reviravoltas como a primeira publicação de Spohr, é também de tirar o folêgo, impossível parar de ler no segundo capítulo, uma aventura atrás da outra, surpresas e um final emocionante com gostinho de quero mais. É claro que pretendo ler o segundo livro da série, Anjos da Morte, no qual Kaíra, A Cetelha Divina, deverá retornar às ruínas em busca de quem ficou para trás. Espero que Eduardo Spohr continue produzindo mais histórias épicas para nós podermos viajar mais um pouco entre o céu e a Terra.

O livro é bem menor que A Batalha do Apocalipse, menos detalhado, mais objetivo, mas nem por isso é menos interessante. A história é empolgante, cômica em algumas partes, pretensiosa e bastante criativa, deixa um enredo muito bom a ser desenvolvido nos livros posteriores que obviamente pretendo ler todos. Kaíra e Denyel são os personagens centrais do livro, com Kaíra sendo a protagonista, mas por enquanto Denyel é o meu favorito. Eduardo Spohr ganhou um lugar especial na minha lista de autores favoritos até o momento. Os próximos livros são Anjos da Morte e O Paraíso Perdido.

Resenha: Gabriela, Cravo e Canela de Jorge Amado

Sinopse: O romance entre o sírio Nacib e a mulata Gabriela, um dos mais sedutores personagens femininos criados por Jorge Amado, tem como pano de fundo, em meados dos anos 20, a luta pela modernização material e cultural de Ilhéus, então em franco desenvolvimento graças às exportações do cacau da região. O eixo da história é a relação delicada e complexa entre as transformações materiais e as idéias morais. Com sua sensualidade inocente, a cozinheira Gabriela não apenas conquista o coração de Nacib como também seduz um sem-número de homens ilheenses, colocando em xeque a férrea lei local que exigia que a desonra do adultério feminino fosse lavada com sangue.Publicado em 1958, Gabriela, cravo e canela logo se tornou um sucesso mundial. Na televisão, a história se transformou numa das novelas brasileiras mais aclamadas mundo afora. No cinema, Nacib é vivido por Marcello Mastroianni, e Gabriela, por Sônia Braga.

Do cheiro do cravo, da cor de canela, eu vim de longe, vim ver Gabriela

Quem nunca ouviu falar na história da Gabriela de Jorge Amado? Grabriela, Cravo e Canela é um dos grandes clássicos da literatura brasileira, publicado pelo baiano Jorge Amado em 1958, que mais tarde acabou inspirando novela da Globo, filme e mini série. O enredo de Gabriela, Cravo e Canela, desenrola-se na Bahia, na cidade de Ilhéus, entre 1925 e 1926, época da zona cacaueira, em que a exploração do cacau plantado e colhido em abundância, provocou diversas transformações políticas, econômicas e culturais, na antiga cidade baiana.

Apesar de ter ouvido falar diversas vezes nessa tal de Gabriela, nunca havia lido sua história de fato, até que minha madrinha deu o livro para a minha mãe e eu peguei para ler, mesmo com uma pequena fila de livros novos e atraentes me esperando, algo me despertou a curiosidade de conhecer melhor a tal Gabriela que inspirou há alguns anos atrás o tão comentado personagem da Juliana Paes, na mini série dedicada à obra.  E digo uma coisa, não tem como não se encantar com Gabriela.

O árabe Nacib foi criado em Ilhéus desde pequeno, sentia-se mais Ilheense do que Sírio de fato. Dono de famoso bar, prestigiado por todos, levava vida boa, passava os dias com os amigos e fregueses a beber no botequim, comentar a vida dos outros, as fofocas da cidade, as aventuras nos cabarés, não tinha compromissos a não ser o lucro do bar e sonho de juntar dinheiro e comprar um bom pedaço de terra para cultivar cacaueiro. O cacau era o astro rei de Ilhéus, a exportação melhorava a economia da pequena cidade, ainda pouco civilizada.

A cidade dependia do cultivo na zona cacaueira, se chovia, se perdesse a plantação era só tristeza, mais quando a colheita era farta, então era só festa entre os Ilheenses. Quem mandava na cidade, quem impunha ordem e respeito eram os fazendeiros, os conquistadores do cacau, que conquistaram o poder através de lutas bárbaras e muito sangue derrubado.

lhéus era a princípio uma cidade bárbara em que mandava quem tinha dinheiro e coragem, matava-se as mulheres que enganavam os maridos, não havia justiça muito menos igualdade. Mas tudo isso mudaria com a chegada de Mundinho Falcão, homem da cidade grande, exportador, grande investidor de Ilhéus, de família prestigiada, que apegara-se à pequena cidade após sair do Rio de Janeiro na tentativa de esquecer um amor não correspondido. Mundinho era o homem que traria a civilização da cidade e do povo Ilheense, e claro, daria muito o que falar nas praças, no porto e no barzinho de Nacib.

Na véspera da chegada do tão espero Mundinho Falcão, Nacib se preparava para um jantar oferecido em seu bar, para homens da cidade grande, gente civilizada de grande escalão, trazidos por Mundinho com o intuito de inaugurar novos projetos da cidade grande. Ilhéus em pouco tempo ganhara estrada de ferro, abriram-se rodovias, viam-se os primeiros carros e caminhões, falava-se agora no complicado caso da Barra, a discutida obra de drenagem no antigo porto da cidade que deveria facilitar a exportação do cacau.

Quando Nacib acreditava que o jantar seu um sucesso e aumentaria seu prestígio de tradicional comerciante, eis que acontece algo que árabe não poderia prever, sua cozinheira o larga a ver navios. Mundinho chegava à cidade com seus amigos, o esperado jantar estava para acontecer e a velha Filomena cumpre a antiga promessa de ir para à casa do filho e deixa Nacib sem ter preparar o jantar e fazer os quitutes do bar. O árabe começa a difícil tarefa de encontrar cozinheira de mão cheia em Ilhéus, o que é raridade na pequena cidade. Gabriela cruza a mata, a pé, do sertão em direção a Ilhéus, em busca de trabalho e um lugar melhor para viver.

A sertaneja passa dias e dias em longa caminhada pela mata, acompanhada de amigos do sertão e do velho tio que adoece e morre durante a viagem. Gabriela era apenas uma menina com ar inocente, sedutora quase sem querer, sempre sorridente e descompromissada. Fez enlouquecer Clemente, com quem se deitou nas noites de descanso no escuro do matagal, ele o prometeu arrumar bom emprego, comprar pedaço de terra e com ela morar, mas não era isso que Gabriela queria. Ela queria ser livre, trabalhar, se sustentar, conhecer a cidade e não se apegar.

Nacib rodou a cidade inteira atrás de cozinheira para substituir a velha Filomena, só restava procurar no mercado dos escravos, chamado assim por ser um agrupamento de pessoas vindas de outras cidades em busca de trabalho. Ela já perdia as esperanças quando encontrou Gabriela, moça solitária, sem família, disposta a trabalhar por qualquer tostão. O árabe duvidava dos talentos da sertaneja maltrapilha, suja, coberta de poeira, que lhe dizia já ter cozinhado em casa de família. Como não tinha nada a perder, Nacib deu uma oportunidade à Gabriela.

O árabe logo encantou-se com tempero da moça, percebeu-se após o banho e a pela limpa, a beleza simples e rude, despretensiosamente sedutora da menina. Era impossível não se atrair pelo jeito de menina inocente e ao mesmo tempo misteriosa de Gabriela. O movimento no bar deu um salto, todos queriam provar o tempero de Gabriela, ver sua beleza de pele cor de canela, perfume de cravo, fazer gracinhas, chamar sua atenção.

O árabe estava contente, o movimento aumentava com a presença de Gabriela, e como não dispensava os prazeres da carnais, passou a ter menina não apenas como cozinheira, procurava-a na cama quase todas as noites, ela não o dispensava, pelo contrário, gostava do árabe. Nacib encantado com seu fogo, seu calor aconchegante, seu perfume de cravo, não precisava mais visitar o cabaré, esquecera de todas as outras.

Nacib estava completamente apaixonado por Gabriela, como nunca esteve por nenhuma outra mulher antes, nunca desejara se casar, construir família, ter uma mulher só, mas Gabriela era agora o que ele tinha de mais importante, e havia o medo, o ciúmes, o grande medo de perde-la. Gabriela todos os dias recebia inúmeras propostas de homens que queria amigar-se com ela, lhe prometiam casa, conta em loja, todas as regalias que ela desejasse.

O árabe em momento de aflição, com medo de perde-la, pediu Gabriela em casamento, quebrou tabus, foi criticado por sua família, apoiado por amigos que acharam nobre de sua parte casar com uma qualquer. Arrumou identidades falsas já que a moça não trouxera documentos, nem sequer sabia o dia de seu nascimento e sobrenome, promoveu o casamento, deu à Gabriela joias, vestidos, sapatos caros, como se ela se importa-se com essas coisas, mas ela gostava mesmo era dos pés no chão, os vestidos de chita e a rosa vermelha atrás da orelha.

Do casamento vieram às discussões, Gabriela não queria magoar Nacib, gosta de seu marido de verdade, mas não gosta dos sapatos apertados, de ficar em casa sem poder ir ao bar, sair sozinha pelas ruas, dançar de pés no chão, e não gostava principalmente de ser repreendida toda vez que saia com o marido e tentava comportar-se como senhora bem educada. Sentia falta dos cortejos, não entendia o ciúme de Nacib, gostava de estar cercada de homens bonitos a admirá-la, amava Nacib, mas não tinha ciúmes dele, seria capaz de aceitar se ele deitasse com outra mulher, queria ela também deitar com outros homens, era apenas desejo carnal, amava mesmo era seu Nacib.

A moça cedeu às provocações de Tônico Bastos, garanhão de má fama, não imaginava magoar Nacib, não imaginava que fossem descobrir, apenas entregou-se ao momento sem pensar, mas o árabe descobriu, pegou os dois no flagra, sua mulher e o padrinho de casamento, o que faria ele, matá-los para lavar com sangue sua honra? Mas ele nunca havia matado ninguém, nenhuma galinha sequer; desolado e pensando em ir embora de Ilhéus para não se sentir humilhado, ele não sabia o que fazer, espancou Gabriela, a pôs para fora de casa, expulsou Tônico à base da pancadaria. Gabriela sabia que cometera um erro, que ele tinha o direito de matá-la se quisesse.

Aconselhado por João Fulgêncio, que lhe propôs a anulação do casamento, já que os documentos de Gabriela eram falsos, Nacib simplesmente a deixou ir, largou Gabriela, a deixou em paz, mesmo não tendo paz em seu coração. Foi prestigiado pelo povo que achou nobre sua atitude, e inteligente por ter conseguido a anulação do casamento, como se tudo aquilo nunca houvesse existido, para o povo Gabriela fora apenas amigada, não havia nascido para ser senhora, e estava agora novamente livre. A moça recebeu novas propostas tentadoras, para cozinhar, se amigar e tudo mais, mas passou então a levar vida solitária, arrependida, na esperança de ter Nacib de volta, Gabriela não aceitara cozinhar para mais ninguém.

Essa é uma história de amor complicada, entre duas pessoas de culturas muito diferentes, que viviam em uma época cheia de rotulações e preconceitos. Uma história que poderia ter terminado em tragédia, mas converteu-se na verdadeira essência do amor: a liberdade. Não sei se é certo o comportamento de Gabriela, mas compreendo sua dificuldade em manter-se fiel, vaidosa, rodeada de pretendentes, moça jovem, porque haveria de ser errado? Por outro lado não há como duvidar do amor de Nacib, enfrentara os preconceitos sociais, casara com uma mulher de classe bem inferior, dera tudo a ela, mas errou tentando fazer com que ela mudasse.

Essa é uma história de amor complicada, entre duas pessoas de culturas muito diferentes, que viviam em uma época cheia de rotulações e preconceitos. Uma história que poderia ter terminado em tragédia, mas converteu-se na verdadeira essência do amor: a liberdade. Não sei se é certo o comportamento de Gabriela, mas compreendo sua dificuldade em manter-se fiel, vaidosa, rodeada de pretendentes, moça jovem, porque haveria de ser errado? Por outro lado não há como duvidar do amor de Nacib, enfrentara os preconceitos sociais, casara com uma mulher de classe bem inferior, dera tudo a ela, mas errou tentando fazer com que ela mudasse.

Resenha: A Batalha do Apocalipse de Eduardo Spohr

Sinopse: Há muitos e muitos anos, tantos quanto o número de estrelas no céu, o paraíso celeste foi palco de um terrível levante. Um grupo de anjos guerreiros, amantes da justiça e da liberdade, desafiou a tirania dos poderosos arcanjos, levantando armas contra seus opressores. Expulsos, os renegados foram forçados ao exílio e condenados a vagar pelo mundo dos homens até o Dia do Juízo Final. Mas eis que chega o momento do Apocalipse, o tempo do ajuste de contas. Único sobrevivente do expurgo, Ablon, o líder dos renegados, é convidado por Lúcifer, o Arcanjo Negro, a se juntar às suas legiões na Batalha do Armagedon, o embate final entre o céu e o inferno, a guerra que decidirá não só o destino do mundo, mas o futuro da humanidade. Das ruínas da Babilônia ao esplendor do Império Romano, das vastas planícies da China aos gelados castelos da Inglaterra medieval, A Batalha do Apocalipse não é apenas uma viagem pela história humana – é também uma jornada de conhecimento, um épico empolgante, repleto de lutas heroicas, magia, romance e suspense. 

“Não há na literatura em língua portuguesa conhecida nada que se pareça com A Batalha do Apocalipse” – José Louzeiro, escritor e roteirista. Faço das palavras de Louzeiro as minhas. Digo isso porque na literatura brasileira estamos acostumados mais com romance do que com a fantasia épica. Eduardo Spohr nos trás neste magnífico livro uma versão completamente diferente das que já conhecemos acerca da criação do universo e o trabalho dos arcanjos e anjos na terra.

Os personagens são tão humanizados e a teoria da criação apresentada por Spohr é de fato convincente que nos leva a crer que tudo isso pode fazer parte da nossa realidade. Nos faz pensar que talvez Deus realmente esteja dormindo desde o momento da criação, enquanto os arcanjos travam guerras sangrentas entre si e lutam pelo poder. As brigas entre os arcanjos simplesmente acontecem pelo amor que alguns demonstram pelos seres humanos, e pelo ódio daqueles que sentem inveja do poder que Deus deu à nós.  Falando no sentido religioso parece absurdo, mas a história se desenvolve de bem bem lógica e fácil de compreender.

Miguel e Lúcifer se roem de inveja de nós, porque somos as únicas criaturas dotadas de livre arbítrio. Podemos decidir como desejamos agir enquanto os celestiais agem puramente por instinto. Nós nos emocionamos, criamos empatia por nossos semelhantes, nos apaixonamos, enquanto os celestiais tem dificuldade de entender tais sentimentos, somos nós os mestres na arte de sentir. Temos almas que não morrem nem quando deixamos o corpo, e teremos sempre a chance de recomeçar, ao contrário dos celestiais que se vão um dia para nunca mais voltar.

A Batalha do Apocalipse narra a história de um grupo de anjos guerreiros, justiceiros que lutam por liberdade, e que ao desafiar os poderosos arcanjos, são forçados ao exílio e condenados a vagar no mundo dos homens, fugindo de buscadores, e aprendendo a viver em uma esfera totalmente diferente, até o dia do Juízo Final. Ablon, nosso renegado mais ilustre, é o único a sobreviver até esse dia, com a ajuda da feiticeira de En-Dor Shamira, por quem se apaixona e luta até o fim. O Anjo Renegado, que não desejava tomar partido na guerra, acaba sendo forçado a lutar ao lado de um dos arcanjos e se torna então um dos personagens principais na guerra que decide o destino do mundo e o futuro da humanidade.

A obra de arte de Spohr narra a história da humanidade, em um épico e empolgante texto, repleto de lutas heroicas, conflitos ideológicos, personagens incríveis e complexos, reflexões sobre a humanidade, romance e um apelo místico forte. Fantasioso e bastante criativo, esse livro é para quem realmente gosta de histórias míticas. Talvez não agrade determinados segmentos religiosos, devido a desconstrução de figuras sagradas, mas vale lembrar que é apenas uma ficção. Esse é o primeiro livro que li do autor e já quero logo ler outros. 

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