Série: O Imortais de Alyson Noel

A série escrita pela americana Alyson Noel gira em torno de Ever Bloom, uma menina popular que tinha uma vida perfeita e invejável, até que um acidente de carro envolvendo a sua família muda completamente a sua história. A loira de olhos azuis se vê perdida e atormentada, a experiência de quase morte trás a ela uma nova maneira de enxergar as coisas e as pessoas. Ever Bloom passa de líder de torcida, patricinha popular a esquisitona do capuz preto. Com seis livros, a trama se passa na Califórnia em tempos atuais, mas mistura o passado com o presente, uma viagem complexa e estimulante sobre as várias encarnações que uma alma pode ter e como elas se interligam. A série de Alyson Noel é uma mistura de romance, magia e alquimia, com conceitos espiritualistas bem definidos e convincentes.  Uma fantasia inteligente, espirituosa, extremamente criativa e estimulante.

Quando li o primeiro livro da série Para Sempre, confesso que fiquei um pouco decepcionada, mas também curiosa, a princípio achei que se tratasse de mais uma historinha de vampiros a moda Crepúsculo. O primeiro livro da série como relatei em uma resenha feita aqui há muito tempo atrás, conta como Ever Bloom se transformou de menina comum a uma esquisitona com poderes paranormais e como ela conheceu (reconheceu) Damen August, o rapaz misterioso, cheio de segredos que a salvou do acidente de carro que matou sua família. O livro termina com muitos segredos em relação a personalidade de Damen e sua real ligação com Ever, a história parece muito vaga e aponta para mais um conto vampiresco qualquer, o que desestimula a leitura do segundo livro.

Depois de Lua Azul engatei em Terra das Sombras e não parei mais, Ever Bloom descobre como viajar para Sumerland, uma espécie de universo paralelo, um mundo mágico e espiritual que só algumas pessoas com certos dons conseguem entrar. Em sumerland ela pode criar o que quiser, vivenciar situações diferentes e principalmente buscar respostas para todas as suas dúvidas. Ever começa a descobrir a sua ligação cármica com Damen e as vidas passadas que eles viveram juntos, ela começa a compreender a infinitude das almas, o mundo espiritual e o poder mágico.

Nem tudo são flores, ao descobrir os segredos do passado Ever se vê confusa, cheia de dúvidas e incertezas, outros personagens importantes do seu passado começam a aparecer novamente em sua vida, uns aparecem para o bem e outros para o mal, existe um carma que precisa ser resolvido para que ela possa voltar a viver em paz. Ela precisa aprender a usar a magia para se defender e enfrentar uma perigosa viagem ao passado, relembrando todas as suas encarnações, revivendo momentos de dor para compreender o que ela realmente deve fazer. Em geral a série nos mostra as verdades do mundo espiritual, o conceito de reencarnação e a imortalidade da alma com uma mistura de magia, paranormalidade e a busca pela evolução espiritual e o conhecimento superior.

Resenha: Ninguém é de Ninguém de Zíbia Gasparetto

Sinopse: Há quem pense que sentir ciúme é provar que se ama ardentemente. Até descobrir que ele transforma a sua vida amorosa em dolorosa tragédia que termina em amarga separação.  Se fizermos as contas, perceberemos que sofremos mais com as pessoas que amamos do que com aquelas que nos odeiam.  O que você chama de amor não será apenas paixão?  Você vive se inferiorizando por não conseguir atingir seus vaidosos ideais e sempre escolhe alguém que terá a terrível tarefa de fazê-lo sentir-se melhor. Tortura essa pessoa para que ela lhe dê uma exaustiva atenção, a mesma que você se nega.  Luta para ser o dono absoluto do outro, como se o fato de gostar lhe desse esse direito.  Esta história o fará refletir sobre o falso e o verdadeiro amor e perceber que a vida afetiva é um constante exercício de autodomínio.  No final descobriremos que só possuímos a nós mesmos, pois ninguém é de ninguém!

Roberto é um homem orgulhoso e machista, seu ciúme extremo demonstra um grande complexo de inferioridade que o leva ao abismo. Casado com Gabriela, uma mulher inteligente, determinada, empoderada e humilde, o oposto de Roberto. Roberto tem pouco estudo, mas sempre trabalhou por conta própria fazendo seu dinheiro de forma honesta, porém a ganância, o desejo de ficar rico para tentar convencer sua esposa a deixar de trabalhar fora, o leva a se associar a um homem dissimulado que toma todo o seu dinheiro. 

Roberto perde tudo, fica na miséria e não consegue arrumar emprego por não ter experiência de carteira assinada, dependendo da ajuda financeira de sua esposa, que apesar dos pedidos do marido para que deixasse de trabalhar fora e ficasse somente cuidando da casa, continuou na empresa de Renato, sempre buscando fazer o seu melhor no trabalho. Gabriela ganha cada vez a confiança de Renato, que aos poucos vê-se apaixonado por aquela mulher forte, inteligente e auto-suficiente. 

Porém Renato é casado com Gioconda, uma mulher manhosa, de personalidade frágil, possessiva e desequilibrada. Apesar do seu casamento com Gioconda ser um fracasso, e mesmo desejando a separação, Renato se mantém fiel a esposa e mantém notável respeito por Gabriela, silenciando seus sentimentos e cultivando uma amizade profunda. Gabriela admira o patrão, mas demora a entender seus sentimentos por ele, ela ainda ama o seu marido, apesar das diferenças. 

O ciúmes doentio de Roberto e Gioconda fazem eles se aliarem em uma empreitada perigosa para afastar Renato e Gabriela, jurando que eles possuem um relacionamento secreto e movidos por forças malignas que se aproveitam de suas fragilidades para incentivarem ainda mais a prática do mal. Eles conseguem causar uma verdadeira tragédia, destruindo suas próprias vidas e afastando definitivamente aqueles que eles pensam que amam.

Apesar das alegações caluniosas de que seriam amantes, da amizade que vai transformando-se em amor e da ruína de seus relacionamentos, Gabriela e Renato procuram calar seus sentimentos, assumindo o que sentem apenas quando já se vêem livres dos seus casamentos. Eles conseguem construir um relacionamento bonito e saudável em um verdadeiro encontro de almas afins, com igualdade de energias e propósitos. 

O livro nos trás uma verdadeira lição sobre amor, autoconfiança, e postura firme e positiva perante as dificuldades da vida. Nos mostra como as nossas atitudes diárias, nossos pensamentos e nossos sentimentos influenciam as energias que se aproximam de nós e como a espiritualidade interfere na vida de nós encarnados. Nos alerta sobre a necessidade de vigiarmos o que nos vai no íntimo, limpar nossos corações, cuidar dos nossos pensamentos e sermos pessoas mais otimistas e corajosas. 

Resenha: Paixão de Lauren Kate

Sinopse: Luce morreria por Daniel. E morreu. De novo e de novo. Ao longo do tempo, Luce e Daniel se encontraram somente para serem dolorosamente separados: Luce morta, Daniel deixado machucado e sozinho. Mas talvez não precise ser dessa maneira… Luce está certa que algo – ou alguém – em uma vida passada pode ajudá-la em sua vida presente. Então ela começa a jornada mais importante desta vida… voltando eternidades para presenciar em primeira mão seus romances com Daniel… e finalmente descobrir o segredo para fazer seu amor durar. Cam e a legião de anjos e Exilados estão desesperados para pegar Luce, mas nenhum deles está tão agitado quanto Daniel. Ele vai atrás de Luce através de seus passados em comum, com medo do que pode acontecer se ela reescrever a história. Porque então seu romance corre o risco de acabar… para sempre.

Luce está cansada dos segredos de seu amado anjo misterioso, ela está cansada de receber ordens com a justificativa de que precisa de proteção, ela sente que é capaz de fazer mais, de lutar por si própria. Luce cresceu muito como mulher do primeiro livro da série até esse, embora ainda seja adolescente. Ela aprendeu que pode se virar sozinha e que para o seu relacionamento dar certo ela precisa compreender a sua história, suas vidas passadas e o mistério que o prende a Daniel. É amor ou maldição? Daniel afirma incessantemente que é amor, mas as tragédias assistidas por Luce a fazem duvidar dos sentimentos que os unem. E se ela pudesse libertar Daniel de ter que se prender a ela, vida após vida, sabendo que no final irá perdê-la? 

Luce parte em uma aventura imprevisível, manejando suas antigas sobras que antes tanto a assustavam como meio de transporte rumo ao seu passado, ela embarca em inúmeras vidas tendo chegar ao ponto de início, quando ela conheceu Daniel, quando a história de deles de fato começou. Ela acredita que através do passado poderá mudar o seu futuro com Daniel, o que ela não sabe é que qualquer deslize pode apagar sua existência, além de Cam e os anjos caídos que continuam perseguindo-a. Ela parte sozinha entre as sombras, deixando seus amigos preocupados tentando encontrá-la sem sequer ter ideia de qual dimensão ela estará.  

Ela observa sua vidas antigas, em épocas e lugares totalmente diferentes, vê seus personagens, suas antigas personalidades se desenvolverem, se apaixonarem sempre pelo mesmo homem misterioso e incrivelmente lindo que sempre aparece por um acaso em suas vidas, vê o apego e revive em cada personagem os sentimentos daquela paixão inexplicável e morre, se apaixona, sofre e morre em uma explosão de luz que dura poucos segundos, ela parte sempre e sempre, deixando inconsolável um anjo amaldiçoado. Luce começa a duvidar do amor que os une, confundindo-o como uma prisão que sufoca ambos os envolvidos, embora ame Daniel verdadeiramente, ela já não sabe mais se sua ligação com ele pode um dia ser benéfica.

Daniel parte através de Luce pelas sombras, revivendo suas vidas antigas e cada vez mais preocupado com as escolhas que Luce pode fazer ao presenciar centenas de vezes suas mortes e os sofrimentos que se sucedem a cada época. A história se resume a contar em cada capítulo uma versão de Luce e seu relacionamento destrutivo com Daniel, levei séculos para terminar de ler porque fiquei entediada com a mesmice do livro. Esperava por mais ação, mas no fim de trata de uma menina que em todas as suas vidas se apaixona pelo mesmo cara, vive um curto romance proibido e morre. É claro que Luce escolhe voltar para Daniel no exato momento em que eles se encontram e ainda não há respostas sobre a ligação que os prende. 

O mundo não é dos espertos

Alguém disse uma vez que o mundo é dos espertos, mas o que é ser esperto? Dizem que o esperto é aquele que sempre vence, então acredito que esse tal esperto não seja humano, talvez um folclore, uma criatura mística, algum tipo de ser sobrenatural, não o conheço, talvez ninguém conheça. Jamais conheci um ser humano que sempre vencesse em tudo, a maioria das pessoas reconhecidas como grandes vitoriosas, escondem suas derrotas por baixo do manto sagrado da glória, algumas pessoas são habilidosas em esconder as coisas, principalmente o que lhes vai no íntimo, o que dói, o que envergonha, o que lhes mancha a honra da vitória.

Tolo quem se engana com as aparências dessas ilustres criaturas, ora, somos humanos, meros mortais, fracos, emotivos, medrosos, traumatizados, propensos ao erro e à derrota. Não acredito que o mundo seja dos espertos, porque não acredito que algum mero ser humano seja de fato esperto em tudo, o tempo inteiro. Alguns acham que o esperto é aquele que coloca seus interesses acima dos interesses de outras pessoas, que vencem no grito, na trapaça, na marra, mas acreditem, eles também caem, principalmente quando ficam cegos pelo ego e enxergam o abismo a sua frente, eles se acostumam a ganhar, sempre ganhar, começam a cair na ilusão de que são invencíveis e aos poucos, mortalmente, tornam-se cegos e ignorantes, eles caem sem perceber e quando caem não conseguem se levantar porque não estão acostumados a lidar com a queda.

Acredito que os melhores vencedores são aqueles que reconhecem que podem falhar, que podem perder e que já perderam muitas vezes e ainda não desistiram de tentar. O mundo não é dos espertos, porque eles não existem duradouramente, a esperteza que conhecemos é uma armadilha. – E o mundo é de quem? – Vocês devem estar se perguntando – religiosos devem crer que o mundo é de Deus, uma espécie de princípio criador, ou espírito super poderoso que nos julga, condena ou absolve de acordo com suas leis. Materialistas dirão que o mundo é dos homens que sabem se auto governar e comandar os mais fracos de acordo com seu entendimento de certo ou errado. Eu prefiro crer que o mundo é dos resistem, independente de sermos de espécie humana ou outro tipo animal.

Se existe algum princípio criador universal, isso nos trouxe até aqui e nos deixou à própria sorte. Sim, o mundo é dos que resistem, tenho certeza, dos que apanham e muitas vezes se calam, dos que ouvem antes de falar, o mundo é dos que caem de cara no chão, curam suas próprias feridas, choram, desabam rios de lágrimas, sentem dor e não as reprimem, gritam e se levantam, ou se rastejam, mas se recusam a ficar parados, o mundo é dos que sabem perder e aceitam suas derrotas, reconhecem seus erros e aprendem com eles, o mundo é dos não desistem de tentar correr atrás do que querem, mesmo quando o vento bate forte contra o peito e tenta os parar. O mundo é dos que sofrem e tentam ser fortes e reconhecer que a verdadeira força, não é enfrentar o outro, mas enfrentar primeiramente a si mesmo.

Resenha: Tormenta de Lauren Kate

Sinopse: Enquanto Daniel está caçando os anjos que querem matar Luce, ela começa a aprender a utilizar as sombras como janelas para suas vidas passadas em Shorelina, sua nova escola. Lá estão alunos com talentos únicos: nefilins, filhos ou descendentes de relacionamentos entre anjos e mortais… Logo Luce está certa de que Daniel está escondendo um segredo mortal, e começa a questionar as consequências desse amor proibido.

Luce agora precisa ficar afastada de Daniel, sua nova condição como não batizada na igreja faz com que ela possa nunca mais voltar a terra caso morra novamente. Daniel continua firme em sua escolha ao ignorar o apelo de boa parte dos anjos caídos e permanecer fiel ao seu amor à Luce, mas essa é uma escolha perigosa. Agora não são apenas os anjos caídos que estão atrás de Luce, outras criaturas querem pegá-la. A condição durante a guerra que se inicia é que Luce fique afastada de Daniel, de todos os seus amigos e sua família em um lugar aparentemente seguro.

Luce é como uma lenda para os nefilins de Shorelina,  escola é um dos poucos lugares onde Luce não pode ser rastreada pelos anjos do outro lado, a presença dos nefilins de alguma forma parece mascarar a presença de Luce. Ela precisa começar tudo de novo, encarar um lugar totalmente diferente, sem saber o que esperar das pessoas que ela vai conhecer. Ela é bem recebida pelos nefilins como nunca havia sido recebida em nenhum outro lugar, seu romance com Daniel e suas várias outras vidas anteriores são lendas para eles. Ela consegue fazer amigos reais e se sentir integrada à algo novo.

No entanto o tempo longe de Daniel, seus novos amigos e as visões do passado que aos poucos ela vai tendo acesso na medida em que aprende a interpretar as sombras anunciadoras, a faz questionar o seu romance com Daniel. Ela começa então a ter dúvidas sobre o passado de Daniel e as escolhas que ele fez. Luce passa a mudar a sua forma de enxergar o mundo e talvez de acordo com essa nova perspectiva, por mais que seu amor por Daniel seja real, não valha tanto a pena o sacrifício. Ela está cansada da superproteção de Daniel, das perguntas não respondidas e de todo o mistério por trás de sua natureza.

Luce quer independência, autonomia e respostas, mais do que tudo, ela quer uma vida normal, mas talvez seja tarde demais, ela já faz parte de um mundo misterioso e incrivelmente perigoso, a escolha foi feita, mais uma vez, ao lado de Daniel, a guerra voltou e talvez não haja mais tempo para voltar atrás. Shorelina não parece tão segura quanto deveria ser, alguns infiltrados tornam-se sérias ameaças. Luce sente-se presa à algo que ela sequer sabe distinguir e totalmente perdida, mais do que lutar por amor, ela precisa lutar por sobrevivência. Luce então faz uma escolha difícil após presenciar um novo e conflito mortal, ela escolhe partir, sozinha em busca de um refúgio para si própria e de respostas.

Começo a gostar mais de Luce a partir desse segundo livro, ela já não é mais a menina passiva,  obcecada pelo namorado incrivelmente poderoso, ela agora investiga o seu passado, questiona e não suporta mais o silêncio. Por mais que ainda ame Daniel, ela não poderia deixar de amá-lo, ela descobre que pode ser independente, ela precisa ser independente, talvez ela possa até ter outros amores, amigos normais, uma rotina simples e segura, talvez ela possa viver sem ele, embora o amor nunca vá morrer, mas ela pode aprender a viver sem esse amor, o destino deles agora é mais incerto do que nunca, Luce está consciente.

Relatos da Mila… O homem sem sobrenome

Ele era um homem cansado, carregava a dor de uma vida nada fácil no olhar, mãos calejadas, cabelo em desalinho e um corpo magro que parecia mais frágil do que realmente era. As pessoas não reparavam muito nele, na verdade até preferiam se afastar, suas roupas em trapos e a cor da sua pele o definiam erroneamente como alguém do tipo que é melhor manter distância, ele está acostumado com os olhares de medo que lhe são lançados todos os dias, ou ainda o olhar de repulsa. 

Criado em berço humilde, perdeu-se na vida ainda jovem, sem estudo e precocemente sem família, dominado pelo vício do álcool, ele dormia embaixo de viadutos pela Zona Oeste do Rio de Janeiro, apesar de sua condição, nunca cobiçou tomar do outro o que não era seu por direito. Um homem sem sobrenome, sem lar, ignorado pela sociedade, ele não tinha perspectivas de uma vida melhor, mas não parecia se incomodar, acostumado a rejeição não procurava, não sabia como procurar um caminho melhor. 

Todas as noites um grupo religioso ia até os moradores de rua e lhes ofereciam um prato de sopa com pão, era sua refeição garantida, então o homem sem sobrenome sabia que por mais que todos lhe ignorassem, que passasse o dia faminto, catando migalhas, a noite ele teria algo, ele teria por mais simples que fosse, um prato de comida, oferecido por pessoas que te olhavam não com medo e repulsa, mas com compaixão. Ele não entendia, acostumado com as brutalidades humanas e a rejeição, o homem sem sobrenome não era capaz de entender os motivos daquele grupo que lhe tratava com tanto respeito e compaixão. 

Então o homem sem sobrenome ganhou um amigo, ali com aquele pequeno grupo de pessoas vestidas de branco, ele descobriu que existem pessoas boas no mundo, ele ganhou um presente valioso: um amigo. O português João Pedro já passava dos 60 anos, sem esposa, com o filho e os netos vivendo em outro estado, ele vivia sozinho e buscava no grupo religioso e no serviço de auxílio ao próximo um alívio para a solidão em que vivia. O velho português lhe parecia o mais louquinho do grupo, estava sempre rindo, só falava em coisas boas e achava tudo bonito. 

O homem sem sobrenome achava que ele alucinava, via tudo diferente do que realmente era, via um mundo colorido onde só havia preto e branco. Esse velho bobo provou que era mesmo meio maluco e ofereceu ao desconhecido mendigo uma casa, roupas limpas e comida, com a condição de que ele largasse o álcool e frequentasse as reuniões no centro espírita. O Homem sem sobrenome não entendia a lógica desse português maluco, ninguém nunca lhe oferecera nada de graça, mas por algum motivo ele simpatizava com velho, sentia-se confortável com a presença dele. Então ele disse ao velho que aceitaria a proposta mas gostaria de trabalhar.

João Pedro comprou doces de vários tipos e mandou que ele vendesse na rua e guardasse o dinheiro. O Homem sem sobrenome começou a princípio sem saber o que fazer, mas logo aprendeu as manhas com outros homens que vendiam doces nos ônibus e no trem, ele ainda sentia o olhar de medo e de repulsa em algumas pessoas na rua, sentia a frieza das pessoas que lhe ignoravam e mal olhavam para o seu rosto quando ele entrava com seus doces no ônibus, o que lhe fazia feliz eram os olhares e sorrisos das crianças quando viam o arranjo de doces em sua mão, as crianças ao contrário da maioria dos adultos ficavam felizes com o seu trabalho. 

O mais difícil no seu dia-a-dia era manter-se longe do álcool, mas ele não podia quebrar uma promessa feita a um homem que de tudo lhe deu, ele não magoaria seu único amigo. O homem sem sobrenome aprendeu a valorizar as pequenas coisas que a vida lhe dera, passou a crer em Deus e descobriu um mundo colorido que ele nunca acreditou que pudesse existir. E ele que também nunca acreditara na bondade das pessoas, adotou o português como pai, amigo e anjo de guarda. 

O homem sem sobrenome é só mais um como milhares por aí, dormiu na rua, passou fome, foi confundido com ladrão, comprou uns doces para vender na rua e vive por aí pulando de ônibus em ônibus, pedindo carona, pedindo um pouco da sua atenção, algumas moedas do tanto de dinheiro que você gasta com bobagens. É só mais um ser humano vítima da desigualdade social que assola esse país, tentando o ganha pão por contra própria, buscando o mínimo de dignidade e respeito. Conheci o homem sem sobrenome em um ônibus de Bangu, as 10 hrs da noite, tentando vender as últimas unidades dos doces de amendoim que restavam em sua caixa.

Resenha: Fallen de Lauren Kate

Sinopse: Algo parecia estranhamente familiar em Daniel Grigori. Solitário e enigmático, ele chama atenção de Luce logo no seu primeiro dia de aula no reformatório. A mudança de escola foi difícil para a jovem, mas encontrar Daniel parecia aliviar o peso das sombras que atormentam o seu passado: Um incêndio misterioso – que provocou a morte de seu namorado – levou Luce até ali. Irremediavelmente atraída por Daniel, ela quer descobrir qual é o segredo que ele precisa tanto esconder – uma verdade que poderia matá-la. Algo que em suas vidas passadas, Daniel não conseguiu evitar. Excitante, sombrio e romântico Falen é ao mesmo tempo, um Thriller e uma inesquecível história de amor.

Este livro já estava na minha lista há bastante tempo (há anos na verdade) mas com a correria dessa vida de estudante é muito difícil cumprir listas. Confesso que a primeira coisa me atraiu foi a capa (sim, sou dessas) em seguida a proposta de um romance entre anjos e humanos. Toda essa mística de anjos e demônios e as suas presenças na terra sempre me chamou atenção, não sou fã de um romance qualquer, mas o apelo místico, ainda que totalmente fora da realidade, me fascina. Assisti ao filme, baseado no livro, antes de pegar o livro para ler e isso aguçou ainda mais a minha curiosidade.

A história começa com os dramas de uma garota esquisita e vê sombras estranhas e acabara de perder o seu único namorado em um incêndio que ela não era capaz de compreender, mas a julgavam culpada. A jovem Luce seria punida em uma escola reformatória cheia de pessoas, iguais e piores do que ela. Ao ver Daniel pela primeira vez ela sente que há algo familiar entre eles e mesmo contra a sua vontade, sem entender os motivos, ela sente-se ridiculamente atraída pelo loiro misterioso de olhos violetas. Luce faz alguns amigos e inimigos em poucos dias e atrai a atenção de Cam, um homem enigmático e super charmoso disposto a tudo para conquistá-la.

Apesar das investidas de Cam, ela até que gostava dele e queria poder gostar mais, no entanto ela não pode controlar o que o sente por Daniel, ainda que o loirinho misterioso a princípio tente ao máximo fugir da moça, chegando a destratá-la para se manter longe. Existe muita coisa em jogo, muitos mistérios a serem resolvidos e pobre Luce não sabe por onde começar. Ela insiste em investigar o passado de Daniel até descobrir que ela já fizera parte dele. A paixão entre Luce e Daniel era inevitável assim como o desastre que se repetira em tantas vidas, mas eles não aguentariam o distanciamento e teriam que se arriscar de novo e mais uma vez se quisessem ficar juntos, estavam entrelaçados um ao outro.

A princípio todas as insistência de Luce em relação a Daniel e suas grosserias tentando afastá-la e todo esse mistério em relação a verdadeira identidade de Daniel me deixaram profundamente irritada com o livro, a ponto de deixar de lado e ler outras histórias para aliviar a tensão. Até Luce descobrir o que de fato Daniel, Cam e alguns de seus amigos realmente são, forma-se um drama entediante. Mas existem muitos mistérios para serem resolvidos e os acontecimentos no fim do livro vão nos despertando a curiosidade em continuar a leitura da sério. Uma mocinha estranha que se apaixona por um cara extraordinário, mas que não é um simples humano e eles precisam lutar para ficarem juntos? Isso me lembrou a saga Crepúsculo! Sim, é bem clichê, mas a curiosidade não me permite desistir da série no primeiro livro.

Resenha: O Beijo – série Bruxos e Bruxas de James Patterson

Sinopse: No quarto livro da série Bruxos e Bruxas, Whit e Wisty, agora membros do Conselho, estão tentando reconstruir a cidade após derrotar o Único que é o Único, o vilão mais malvado do mundo. Quando tudo parece correr bem, surge uma nova ameaça personificada na figura do cruel Rei da Montanha. Ele é um mago indestrutível que deseja a todo custo dominar a cidade. Sem água e prestes a ficar sem alimentos, a população conta com os irmãos Allgood para sobreviver. A aventura e o suspense fazem o leitor prender a respiração a cada vez que um capítulo termina. Mas com um título como esse, não poderia faltar romance no novo livro de James Patterson… Wisty está encantada pelo jovem Heath, que compreende tão bem os seus dilemas, afinal ele também é um bruxo. Talvez Wisty possa se unir a Heath na guerra contra o Rei da Montanha. Mas o que será que Whit pensa disso? Se você ama romance, mistério e ação, O Beijo é o seu livro! Páginas muito intensas, desfechos surpreendentes… Mas uma prova de que James Patterson é o maior autor da sua geração.

O quarto e último livro da série tem tudo para ser o final feliz dos irmãos Allgood e de todos os jovens que o acompanharam na luta contra o terrível ditador que se autodenominava O Único. O malvado já não existia mais, a cidade estava livre e os jovens agora podiam fazer parte do conselho da cidade. A esperança reinava nas ruas apesar das destruições provocadas pela guerra, a vontade de reconstruir a cidade era maior que tudo. Wisty e Whit eram os mais novos heróis da cidade e juntos defendiam a sua reconstrução. Os irmãos assumiram um compromisso com o conselho e passaram a frequentar os debates com frequência, no entanto a política viria a ser mostrar mais cruel do que eles poderiam imaginar. Leis complicadas, crise financeira, acordos desfeitos e toda a falsidade do jogo político acabariam por ameaçar a imagem heroica dos irmãos.

Após a morte do Único que é o Único, o impiedoso Rei da Montanha desfez o acordo que mantinha o abastecimento de água na cidade, com a comida escassa e com o risco de seca, o conselho precisa tentar um novo acordo, porém o Rei da Montanha parece não ter a menor afeição aos jovens bruxos. Se não bastasse o confronto político, crianças e jovens começam a desaparecer misteriosamente, tudo indica que estão sendo levadas pelo malvado das montanhas. Mais um vilão para os irmãos Allgoood enfrentarem e nesse caminho Wisty se apaixona pelo jovem Heath, um misterioso bruxo que faz explodir em Wisty sentimentos e sensações ainda desconhecidas, no entanto Whit não confia nenhum pouco no novo namorado de Wisty e acaba se afastado da irmã, preferindo ir a luta sozinho.

Wisty merecia encontrar um namorado legal, ela que já sofreu por confiar na pessoa errada, merecia enfim ser feliz e Heath parecia ser o cara perfeito, um bruxo lindo e poderoso, que parecia sempre saber exatamente o que ela precisava, juntos eles eram uma explosão, literalmente, um vulcão em erupção, no entanto, algo parece não estar certo, nem todos acham adequado o relacionamento dos dois. Wisty prefere não subir a montanha com o irmão, evitando o confronto direto com o Rei malvado até que a guerra torna-se inevitável. Heath e Wisty juntos poderiam combinar seus poderes e enfrentar o Rei da Montanha, no entanto a bruxinha recebe uma notícia nada agradável, a família de Heath não é bem o que ela desejava, na verdade é exatamente o contrário, e novamente Wisty se vê sem saber em quem e no que confiar.

Apenas a união entre os irmãos, a confiança nas pessoas certas, os amores verdadeiros e os bons amigos podem acabar com a guerra que ameaça a cidade, mais uma vez os irmãos Allgood precisam lutar, mas agora não apenas pela própria sobrevivência, mas pelo sustento de toda uma cidade. O quarto livro é uma verdadeira guerra política e os interesses são os mesmos: poder e domínio ditatorial. Sem perder o fôlego e a narrativa irreverente e divertida, o último livro da série não deixa nada a desejar, com muita ação, magia, intrigas, mistérios e surpresas a cada capítulo, além de um toque especialmente romântico, um verdadeiro Grand Finale. Essa é uma das melhores séries de todos os tempos do estilo aventura/fantasia. James Patterson esbanja criatividade e perfeição em cada detalhe, consagrando-se como um dos escritores mais brilhantes do gênero.

Resenha: O Fogo – série Bruxos e Bruxas de James Patterson

Sinopse: Você pensou que seria um conto de fadas? Whit e Wisty Allgood sacrificaram tudo para liderar a Resistência contra o regime sanguinário que governa o mundo. O líder supremo, O Único Que É O Único, baniu tudo o que havia de bom: livros, música, arte e imaginação. Mas o poder dos dois irmãos parece estar longe de conseguir deter O Único, e agora ele executou a única família que eles tinham. Você não vai encontrar O Único aqui. Wisty sabe que o momento se aproxima. Em breve ela estará cara a cara com O Único. A sua bravura e o seu dom canalizam ainda mais poder para esse ser, que já é invencível. De que maneira ela e Whit poderão se preparar para o confronto iminente com o implacável vilão que devastou o seu mundo – antes de ele se tornar verdadeiramente onipotente? Nem sempre seremos felizes depois que acabar. No impressionante terceiro livro da série Bruxos e Bruxas, a tensão está maior do que nunca – e as consequências mudarão tudo.

O Fogo é o terceiro e penúltimo livro da série, representa um dos piores momentos dos irmãos bruxos, eles chegam até o inferno, literalmente, para tentarem a salvação final. O Único que o Único, nosso vilão sem escrúpulos, tem expandido seu poder cada vez mais, chegando até a terra das sombras, uma espécie de plano intermediário, onde aqueles que morrem precisam passar para chegar ao outro plano. O Único poder que o nosso vilão ainda não domina é o poder da nossa bruxinha Wisty, o dom de dominar o fogo.

– ” Mas ele não tem o seu fogo Wisty, a sua energia, sua eletricidade. Ele pode controlar a terra mas não controla as pessoas que vivem aqui. Pelo menos não os pensamentos delas. Ainda não. Mas se aquilo que o Único acredita for verdade, que os poderes se estendem aos impulsos elétricos do cérebro, ele vai usar você para controlar não só o governo da superfície, mas também todas as mentes, de toda a humanidade, em todas as dimensões.” (Pág. 111)

Repleto de momentos tensos, cenas horripilantes e confusões desnecessárias, Wisty e Whit demonstram muita imaturidade para quem tem a pretensão de salvar o mundo e se colocam em momentos tensos que complicam ainda mais toda a situação. Eles ainda não conseguem compreender a real dimensão dos seus poderes e se encontram em um beco sem saída, após a perda dos pais, eles só podem contar um com o outro. 

Uma peste se espalhou abruptamente pela cidade, espalhando doença, miséria e caos, dizimando grande parte da população. A resistência se separou, eles estão desamparados e Whit acaba não podendo contar com muita ajuda de Wisty que está gravemente doente. A bruxa precisa contar com a ajuda de algumas pessoas boas que surgem em seu caminho para se recuperar e ter forças para encarar o Único que é o Único que segue em sua perseguição cruel.

Após uma leitura morna no livro anterior, esse livro aqui faz jus ao nome e realmente pega fogo, o livro aborda mais sobre o vilão inescrupuloso, mostra quem de fato ele é, suas intenções e a forma como a Nova Ordem consegue manipular as pessoas. Repleto de relatos chocantes, com forte carga dramática e muita adrenalina, é uma leitura bem mais acelerada e instigante. Acho que o último livro, O Beijo, deve trazer uma energia mais romântica e um desfecho harmônico. 

Relatos da Mila: Um amigo de infância

Um dia desses, indo para faculdade eu encontrei um cão da raça labrador guiando um deficiente visual e dando uma verdadeira lição nos apressadinhos que queriam atravessar na frente dos carros. Fiquei embasbacada com a intelegência de um cão que trabalha com a difícil tarefa de ser os olhos daqueles que não enxergam. Passei o resto da noite pensando nesse pequeno detalhe do meu dia que não durou nem cinco minutos. Isso me fez lembrar do meu melhor amigo de infância, daquele que tanto brincou comigo e nunca me deixou ficar triste. Meu amigo tinho quatro patas, pêlo marrom com uma mancha branca no peito, olhos cor de mel e jeito de safado. Ele tinha porte de labrador mas a mancha branca no peito denunciava sua misticidade de raças.

O Marrom, como era chamado por pura falta de criatividade em criar um nome decente, chegou à família Correia Freire aos poucos, primeiro conquistou o coração do Sr. Correia, meu avô que vira e mexe dava ração para ele na rua, depois conquistou a minha avô acompanhando-a no caminho de casa para o clube e do clube para casa. Marrom virou o guardião do portão aqui de casa, alimentado na calçada e nos acompanhando nos passeios na rua. Por que dar de comer e beber a um cão na rua e não dar também um lugar aconchegante para dormir? Não tem jeito! Com aquele olhar de cachorro abandonado e a educação digna de um lorde, o vira-lata metido a labrador conquistou a todos e logo ganhou um cantinho aconchegante para dormir no quintal.

Porém o Marrom era cachorro de rua, não conseguia ficar trancado por muito tempo em casa, escapulia sempre que alguém abrisse o portão, e não adiantava reclamar, cachorro de rua não se domina. Apesar de rebelde, o bicho era inteligente, minha mãe reclamava de ter que limpar o quintal sozinha e o cão para não incomodar não fazia suas necessidades fisiológicas enquanto alguém não abrisse o portão para deixá-lo ir a rua. Não podímos impedir, ele fugia, fazia o que queria na rua, voltava para casa na hora que bem entendesse, deitava no portão e aí de quem chegasse perto. Não podia passar ninguém na calçada que ele botava pra correr, afinal ele era o guardião do portão.

Mas é curiosa a inteligência desse bicho, certo dia, a vizinha, uma senhora de idade avançada resolveu chegar no portão quando a fera lá estava plantada, ele olhou de cima abaixo, sentou e simplesmente não fez nada, acho que essa foi a primeira pessoa ou talvez a única que chegou no meu portão e guardião não quis atacar. Ele era um bicho de temperamento difícil, e após tentar atacar alguém no portão, meu pai revoltou-se com o cão rebelde e resolveu jogá-lo fora, esse foi o dia mais triste e ao mesmo tempo mais feliz da minha infância.

Colocamos o Marrom dentro do carro, ele adorava passear conosco mas sempre preferiu ir correndo ao redor do carro, ele me olhava angustiado e eu queria chorar, mas não pude falar nada, não podia desafiar o meu pai. Levamos ele para outro bairro, o botamos para fora do carro e fomos embora, senti uma tristeza tão grande que não consigo descrever. Alguns minutos depois de chegar em casa, eu tentava superar o vazio no quintal, quando vejo chegando quase morrendo com a respiração acelerada, o meu amigo rebelde. Já era! Ele aprendeu o caminho de casa! E o meu pai, afinal, aprendeu a lição, o cão atravessou o bairro e voltou para casa, com a língua para fora, o rabo balançado e os olhinhos brilhando, ele parecia dizer que jamais nos deixaria. Não fomos nós que escolhemos, foi o cão que nos escolheu. Meu pai e o Marrom se tornaram grandes amigos, e nunca vi meu pai se emocionar falando de um cachorro.

O Marrom era o meu guia, quando queria saber para onde o meu pai havia ido, eu abria o portão e pedia para ele me levar até o pai, ele olhava para os lados da rua, parecia farejar o ar e saía correndo na minha frente, eu seguia, ele parava em cada esquina para me esperar e voltava a correr, eu sabia que ele me levaria ao lugar certo. E quando o meu pai sentando no bar via o Marrom correndo em sua direção, já sabia que logo a patrulha viria atrás. Além de guia, ele também era segurança, nós tinhamos o hábito de andar pelo bairro de bicileta, podíamos ir ao mercado e deixar a bike destrancada do lado de fora que lá ficava o Marrom tomando conta, e ninguém ousava chegar perto do objeto assegurado pelo bicho.

Uma vez saímos todos de carro para uma festa junina, o Marrom fugiu assim que abrimos o portão e não vimos para onde ele foi, durante a festa nós pergutamos se ele estaria no portão de casa tentando morder quem chegasse perto, afinal ele não tinha nos seguido. Quando íamos em direção ao carro, já era tarde de noite e abandonávamos a festa, vimos de longe um cão deitado ao lado do carro, quando chegamos mais perto lá veio ele abanando o rabo e fazendo festa, ele não encontrou os donos mas achou o carro e lá ficou tomando conta.

Esse cão é uma das melhores lembranças que eu tenho da minha infância, tive vários cães ao longo da minha existência, mas nenhum foi tão fiel à família quanto ele. Lembro de quando o Flamengo ganhou um campeato e saimos de carro buzinando pelo bairro, com a bandeira cobrindo o carro, várias pessoas de preto e vermelho no calçadão celebrando, e claro, lá estava o Marrom, como se fosse um flamenguista, correndo na frente no carro e latindo, e as pessoas brincando conosco. Não havia um só momento triste ao lado dele, ele parecia saber ler as emoções das pessoas, fazia de tudo para agradar, e várias vezes eu achava que ele era um humano em forma de cão, nunca vi bicho mais inteligente, sabia atravessar a rua, fazer as necessidades no lugar certo, entendia o que falávamos, menos a parte de que não era certo brigar com o gari e o carteiro.

A única recordação ruim que eu tenho com o meu amigo foi quando ele apareceu em casa com uma parte do crânio amassada, ele não gostava dos carroceiros que passavam na rua, e certa vez levou uma pedrada de um ser humano cruel, só porque ele estava latindo para a carroça. O ferimento afetou o crânio e não havia chance de recuperação, não quis vê-lo nesses últimos dias, não aguentei ver o sofrimento do meu amigo, não me despedi, prefiri pensar que ele ainda estava na rua fazendo bagunça. Sofremos com a morte dele como se ele fosse um humano, uma pessoa importante na família, sei que nunca vou encontrar um cão que o substitua, ele era super inteligente, divino, único. Certas coisas só acontecem uma vez na nossa vida, e o que eu vivi com esse amigo eu sei que não viverei novamente.

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