Alguém disse uma vez que o mundo é dos espertos, mas o que é ser esperto? Dizem que o esperto é aquele que sempre vence, então acredito que esse tal esperto não seja humano, talvez um folclore, uma criatura mística, algum tipo de ser sobrenatural, não o conheço, talvez ninguém conheça. Jamais conheci um ser humano que sempre vencesse em tudo, a maioria das pessoas reconhecidas como grandes vitoriosas, escondem suas derrotas por baixo do manto sagrado da glória, algumas pessoas são habilidosas em esconder as coisas, principalmente o que lhes vai no íntimo, o que dói, o que envergonha, o que lhes mancha a honra da vitória.
Tolo quem se engana com as aparências dessas ilustres criaturas, ora, somos humanos, meros mortais, fracos, emotivos, medrosos, traumatizados, propensos ao erro e à derrota. Não acredito que o mundo seja dos espertos, porque não acredito que algum mero ser humano seja de fato esperto em tudo, o tempo inteiro. Alguns acham que o esperto é aquele que coloca seus interesses acima dos interesses de outras pessoas, que vencem no grito, na trapaça, na marra, mas acreditem, eles também caem, principalmente quando ficam cegos pelo ego e enxergam o abismo a sua frente, eles se acostumam a ganhar, sempre ganhar, começam a cair na ilusão de que são invencíveis e aos poucos, mortalmente, tornam-se cegos e ignorantes, eles caem sem perceber e quando caem não conseguem se levantar porque não estão acostumados a lidar com a queda.
Acredito que os melhores vencedores são aqueles que reconhecem que podem falhar, que podem perder e que já perderam muitas vezes e ainda não desistiram de tentar. O mundo não é dos espertos, porque eles não existem duradouramente, a esperteza que conhecemos é uma armadilha. – E o mundo é de quem? – Vocês devem estar se perguntando – religiosos devem crer que o mundo é de Deus, uma espécie de princípio criador, ou espírito super poderoso que nos julga, condena ou absolve de acordo com suas leis. Materialistas dirão que o mundo é dos homens que sabem se auto governar e comandar os mais fracos de acordo com seu entendimento de certo ou errado. Eu prefiro crer que o mundo é dos resistem, independente de sermos de espécie humana ou outro tipo animal.
Se existe algum princípio criador universal, isso nos trouxe até aqui e nos deixou à própria sorte. Sim, o mundo é dos que resistem, tenho certeza, dos que apanham e muitas vezes se calam, dos que ouvem antes de falar, o mundo é dos que caem de cara no chão, curam suas próprias feridas, choram, desabam rios de lágrimas, sentem dor e não as reprimem, gritam e se levantam, ou se rastejam, mas se recusam a ficar parados, o mundo é dos que sabem perder e aceitam suas derrotas, reconhecem seus erros e aprendem com eles, o mundo é dos não desistem de tentar correr atrás do que querem, mesmo quando o vento bate forte contra o peito e tenta os parar. O mundo é dos que sofrem e tentam ser fortes e reconhecer que a verdadeira força, não é enfrentar o outro, mas enfrentar primeiramente a si mesmo.
Um dia desses, indo para faculdade eu encontrei um cão da raça labrador guiando um deficiente visual e dando uma verdadeira lição nos apressadinhos que queriam atravessar na frente dos carros. Fiquei embasbacada com a intelegência de um cão que trabalha com a difícil tarefa de ser os olhos daqueles que não enxergam. Passei o resto da noite pensando nesse pequeno detalhe do meu dia que não durou nem cinco minutos. Isso me fez lembrar do meu melhor amigo de infância, daquele que tanto brincou comigo e nunca me deixou ficar triste. Meu amigo tinho quatro patas, pêlo marrom com uma mancha branca no peito, olhos cor de mel e jeito de safado. Ele tinha porte de labrador mas a mancha branca no peito denunciava sua misticidade de raças.
O Marrom, como era chamado por pura falta de criatividade em criar um nome decente, chegou à família Correia Freire aos poucos, primeiro conquistou o coração do Sr. Correia, meu avô que vira e mexe dava ração para ele na rua, depois conquistou a minha avô acompanhando-a no caminho de casa para o clube e do clube para casa. Marrom virou o guardião do portão aqui de casa, alimentado na calçada e nos acompanhando nos passeios na rua. Por que dar de comer e beber a um cão na rua e não dar também um lugar aconchegante para dormir? Não tem jeito! Com aquele olhar de cachorro abandonado e a educação digna de um lorde, o vira-lata metido a labrador conquistou a todos e logo ganhou um cantinho aconchegante para dormir no quintal.
Porém o Marrom era cachorro de rua, não conseguia ficar trancado por muito tempo em casa, escapulia sempre que alguém abrisse o portão, e não adiantava reclamar, cachorro de rua não se domina. Apesar de rebelde, o bicho era inteligente, minha mãe reclamava de ter que limpar o quintal sozinha e o cão para não incomodar não fazia suas necessidades fisiológicas enquanto alguém não abrisse o portão para deixá-lo ir a rua. Não podímos impedir, ele fugia, fazia o que queria na rua, voltava para casa na hora que bem entendesse, deitava no portão e aí de quem chegasse perto. Não podia passar ninguém na calçada que ele botava pra correr, afinal ele era o guardião do portão.
Mas é curiosa a inteligência desse bicho, certo dia, a vizinha, uma senhora de idade avançada resolveu chegar no portão quando a fera lá estava plantada, ele olhou de cima abaixo, sentou e simplesmente não fez nada, acho que essa foi a primeira pessoa ou talvez a única que chegou no meu portão e guardião não quis atacar. Ele era um bicho de temperamento difícil, e após tentar atacar alguém no portão, meu pai revoltou-se com o cão rebelde e resolveu jogá-lo fora, esse foi o dia mais triste e ao mesmo tempo mais feliz da minha infância.
Colocamos o Marrom dentro do carro, ele adorava passear conosco mas sempre preferiu ir correndo ao redor do carro, ele me olhava angustiado e eu queria chorar, mas não pude falar nada, não podia desafiar o meu pai. Levamos ele para outro bairro, o botamos para fora do carro e fomos embora, senti uma tristeza tão grande que não consigo descrever. Alguns minutos depois de chegar em casa, eu tentava superar o vazio no quintal, quando vejo chegando quase morrendo com a respiração acelerada, o meu amigo rebelde. Já era! Ele aprendeu o caminho de casa! E o meu pai, afinal, aprendeu a lição, o cão atravessou o bairro e voltou para casa, com a língua para fora, o rabo balançado e os olhinhos brilhando, ele parecia dizer que jamais nos deixaria. Não fomos nós que escolhemos, foi o cão que nos escolheu. Meu pai e o Marrom se tornaram grandes amigos, e nunca vi meu pai se emocionar falando de um cachorro.
O Marrom era o meu guia, quando queria saber para onde o meu pai havia ido, eu abria o portão e pedia para ele me levar até o pai, ele olhava para os lados da rua, parecia farejar o ar e saía correndo na minha frente, eu seguia, ele parava em cada esquina para me esperar e voltava a correr, eu sabia que ele me levaria ao lugar certo. E quando o meu pai sentando no bar via o Marrom correndo em sua direção, já sabia que logo a patrulha viria atrás. Além de guia, ele também era segurança, nós tinhamos o hábito de andar pelo bairro de bicileta, podíamos ir ao mercado e deixar a bike destrancada do lado de fora que lá ficava o Marrom tomando conta, e ninguém ousava chegar perto do objeto assegurado pelo bicho.
Uma vez saímos todos de carro para uma festa junina, o Marrom fugiu assim que abrimos o portão e não vimos para onde ele foi, durante a festa nós pergutamos se ele estaria no portão de casa tentando morder quem chegasse perto, afinal ele não tinha nos seguido. Quando íamos em direção ao carro, já era tarde de noite e abandonávamos a festa, vimos de longe um cão deitado ao lado do carro, quando chegamos mais perto lá veio ele abanando o rabo e fazendo festa, ele não encontrou os donos mas achou o carro e lá ficou tomando conta.
Esse cão é uma das melhores lembranças que eu tenho da minha infância, tive vários cães ao longo da minha existência, mas nenhum foi tão fiel à família quanto ele. Lembro de quando o Flamengo ganhou um campeato e saimos de carro buzinando pelo bairro, com a bandeira cobrindo o carro, várias pessoas de preto e vermelho no calçadão celebrando, e claro, lá estava o Marrom, como se fosse um flamenguista, correndo na frente no carro e latindo, e as pessoas brincando conosco. Não havia um só momento triste ao lado dele, ele parecia saber ler as emoções das pessoas, fazia de tudo para agradar, e várias vezes eu achava que ele era um humano em forma de cão, nunca vi bicho mais inteligente, sabia atravessar a rua, fazer as necessidades no lugar certo, entendia o que falávamos, menos a parte de que não era certo brigar com o gari e o carteiro.
A única recordação ruim que eu tenho com o meu amigo foi quando ele apareceu em casa com uma parte do crânio amassada, ele não gostava dos carroceiros que passavam na rua, e certa vez levou uma pedrada de um ser humano cruel, só porque ele estava latindo para a carroça. O ferimento afetou o crânio e não havia chance de recuperação, não quis vê-lo nesses últimos dias, não aguentei ver o sofrimento do meu amigo, não me despedi, prefiri pensar que ele ainda estava na rua fazendo bagunça. Sofremos com a morte dele como se ele fosse um humano, uma pessoa importante na família, sei que nunca vou encontrar um cão que o substitua, ele era super inteligente, divino, único. Certas coisas só acontecem uma vez na nossa vida, e o que eu vivi com esse amigo eu sei que não viverei novamente.
Estava parada tentando não enlouquecer com as buzinas irritantes dos carros. Rodoviária de Campo Grande, zona oeste do Rio, fim de tarde, comecinho da noite, pessoas saindo do trabalho com pressa, alguns saindo da escola e outros indo para faculdade, todos numa ânsia como se vivêssemos o última dia de vida no planeta Terra. O sinal ainda estava verde para os carros, mas devido ao engarrafamento, as pessoas tentavam atravessar, ignorando as buzinadas constantes dos motoristas de ônibus. Por um instante eu pensei como me sentiria no lugar do motorista, com hora para cumprir viagem, tendo que ter paciência com o trânsito terrível do horário e ainda esperar os desesperados acabarem de atravessar por entre os ônibus. Não tive coragem de atravessar, afinal o sinal ainda estava verde e eu me colocava no frustrante lugar do motorista. Eis que alguém me empurra, uma mulher segurando uma criança pela mão e ainda exclama – se não vai atravessar saia do caminho! Fiquei tão boba e foi tudo tão rápido que não tive resposta. Em meio a minha indignação com o comportamento das pessoas, aparece um cão ao meu lado, um labrador champanhe, daqueles lindos dignos de um filme, guiando um deficiente visual, educadamente o cão parou na calçada ao meu lado e me fez companhia atrapalhando a passagem dos desesperados, como mais ninguém notou um bichinho tão fofo? Ele olhava para os carros tentando passar e também não devia estar entendendo o desespero e a falta de respeito das pessoas, apenas quando o sinal fechou e os carros pararam atrás da faixa ele atravessou guiando o seu dono educadamente, como um lord canino. Como pode um ser dito irracional ter mais educação do que nós, seres racionais ditos civilizados? Fui para a faculdade, cheguei atrasada e talvez tivesse chegado no horário se tivesse atravessado mais rápido ou se o meu ônibus não ficasse tanto tempo tentando atravessar em um sinal que ninguém respeita. Passei a noite pensando naquele cão e em todos os vira latas, poodles e Pit Bulls que eu já tive na vida, e realmente entendo as razões de quem criou a frase “quanto mais eu conheço as pessoas mais eu amo o meu cachorro”.